Prefácio
No princípio da bendita Reforma, nossos sábios e piedosos antepassados cuidaram de publicar uma Ordem para a correção de muitas coisas que eles então, pela Palavra, descobriram ser vãs, errôneas, supersticiosas e idólatras no culto público de Deus. Isso levou muitos homens piedosos e doutos a se regozijarem grandemente com o Livro de Oração Comum publicado naquele tempo, porque, sendo removidos a Missa e o restante do serviço em latim, o culto público passou a ser celebrado em nossa própria língua; e também muitos do povo comum receberam benefício ouvindo as Escrituras lidas em sua própria língua, as quais antes eram para eles como um livro selado.
Todavia, uma longa e triste experiência tornou manifesto que a liturgia usada na Igreja da Inglaterra (não obstante todo o esforço e as intenções religiosas dos que a compilaram) tem sido motivo de escândalo, não somente para muitos dos piedosos em nosso país, mas também para as Igrejas Reformadas do estrangeiro. Pois, para não falar da exigência de que se leiam todas as orações, o que aumentou muitíssimo o seu peso, as muitas cerimônias inúteis e pesadas nela contidas têm ocasionado muito dano, tanto inquietando a consciência de muitos ministros e fiéis piedosos que não podiam submeter-se a elas, como privando-os das ordenanças de Deus, das quais não podiam gozar sem se conformarem com essas cerimônias ou subscreverem-nas. Diversos bons cristãos, por esse meio, foram impedidos de se aproximar da Mesa do Senhor, e muitos ministros capazes e fiéis foram excluídos do exercício do seu ministério (com perigo para muitos milhares de almas, num tempo de tanta escassez de pastores fiéis) e despojados do seu sustento, para ruína deles e de suas famílias. Os prelados e o seu partido trabalharam por elevar a estima dela a tal ponto, como se não houvesse entre nós outro culto ou modo de culto a Deus senão somente o Livro de Serviço; com grande prejuízo da pregação da Palavra, e (em alguns lugares, especialmente nos últimos tempos) até ao ponto de afastá-la como desnecessária, ou (no máximo) como muito inferior à leitura da Oração Comum; a qual foi tida, por muitos ignorantes e supersticiosos, como pouco melhor do que um ídolo; e estes, comprazendo-se em sua presença naquele serviço e no trabalho dos lábios ao tomar parte nele, endureceram-se assim em sua ignorância e descuido do conhecimento salvador e da verdadeira piedade.
Entretanto, os papistas se jactavam de que o Livro era uma concessão a eles em grande parte do seu serviço, e assim foram não pouco confirmados em sua superstição e idolatria, esperando antes o nosso retorno a eles do que procurando a sua própria reforma; expectativa em que foram ultimamente muito encorajados quando, sob o pretexto de ser legítima a imposição das cerimônias anteriores, novas cerimônias eram diariamente impostas à Igreja.
Acrescente-se a isto (o que não se previu, mas depois aconteceu) que a liturgia tem sido um grande meio, de um lado, para produzir e aumentar um ministério ocioso e não edificante, que se contentava com formas fixas preparadas por outros, sem se aplicar ao exercício do dom de oração, com o qual nosso Senhor Jesus Cristo se apraz em prover todos os seus servos que chama para esse ofício; e, de outro lado, tem sido (e sempre seria, se continuasse) motivo de interminável discórdia e contenda na Igreja, e um laço tanto para muitos ministros piedosos e fiéis, que por esse motivo foram perseguidos e silenciados, como para outros de dons promissores, muitos dos quais foram, e muitos mais ainda seriam, desviados de todo pensamento do ministério para outros estudos; especialmente nestes últimos tempos, em que Deus se digna conceder ao seu povo mais e melhores meios para a descoberta do erro e da superstição, e para alcançar conhecimento nos mistérios da piedade e dons na pregação e na oração.
Por estas e muitas outras considerações de peso semelhantes, referentes ao Livro todo em geral, e por causa de diversos pontos particulares nele contidos; não por amor à novidade, nem com intenção de depreciar os nossos primeiros reformadores (dos quais estamos persuadidos de que, se vivessem agora, se uniriam a nós nesta obra, e aos quais reconhecemos como excelentes instrumentos levantados por Deus para começar a purificação e a edificação da sua Casa, e desejamos que sejam tidos por nós e pela posteridade em eterna memória, com gratidão e honra), mas para que possamos, em alguma medida, corresponder à graciosa providência de Deus, que neste tempo nos chama a uma reforma mais ampla, e possamos satisfazer as nossas próprias consciências e corresponder à expectativa das outras Igrejas Reformadas e aos desejos de muitos dos piedosos entre nós mesmos, e ao mesmo tempo dar algum testemunho público dos nossos esforços pela uniformidade no culto divino, que prometemos em nossa Liga e Pacto Solene: resolvemos, depois de sincera e frequente invocação do nome de Deus, e depois de muita consulta, não com carne e sangue, mas com a sua santa Palavra, pôr de lado a antiga liturgia, com os muitos ritos e cerimônias anteriormente usados no culto de Deus; e concordamos neste Diretório que se segue, para todas as partes do culto público, nos tempos ordinários e extraordinários.
Nele o nosso cuidado foi apresentar as coisas que são de instituição divina em cada ordenança; e as outras coisas procuramos expor segundo as regras da prudência cristã, de acordo com as regras gerais da Palavra de Deus. A nossa intenção nisso é somente que, sendo conhecidos de todos os pontos gerais, o sentido e o escopo das orações e das outras partes do culto público, haja concordância de todas as Igrejas naquelas coisas que contêm a substância do serviço e do culto de Deus; e que os ministros sejam por este meio dirigidos em suas ministrações a manter semelhante solidez na doutrina e na oração, e possam, se necessário, ter algum auxílio e provisão; mas não de tal modo que se tornem por isso preguiçosos e negligentes em despertar os dons de Cristo que há neles; antes, que cada um, pela meditação, cuidando de si mesmo e do rebanho de Deus que lhe foi confiado, e observando sabiamente os caminhos da providência divina, tenha o cuidado de prover o seu coração e a sua língua de outras e mais matérias de oração e exortação, conforme for necessário em todas as ocasiões.
Da Reunião da Congregação e do seu Comportamento no Culto Público de Deus
Quando a congregação houver de reunir-se para o culto público, o povo (tendo antes preparado o coração para isso) deve vir todo e unir-se a ele, não se ausentando das ordenanças públicas por negligência ou sob pretexto de reuniões particulares.
Entrem todos na assembleia, não de modo irreverente, mas de maneira grave e decorosa, tomando os seus assentos ou lugares sem adoração e sem se inclinarem para um lugar ou para outro.
Estando reunida a congregação, o ministro, depois de chamá-la solenemente à adoração do grande nome de Deus, deve começar com oração:
Reconhecendo, com toda reverência e humildade, a incompreensível grandeza e majestade do Senhor (em cuja presença eles então comparecem de modo especial), e a sua própria vileza e indignidade para se aproximarem tanto dele, com a sua completa incapacidade, por si mesmos, para tão grande obra; e suplicando-lhe humildemente perdão, auxílio e aceitação em todo o serviço que então se vai realizar, e bênção sobre aquela porção particular da sua Palavra que então se vai ler; e tudo em nome e pela mediação do Senhor Jesus Cristo.
Começado o culto público, o povo deve estar inteiramente atento a ele, abstendo-se de ler qualquer coisa, exceto o que o ministro estiver então lendo ou citando; e abstendo-se muito mais de todos os cochichos particulares, conversas, saudações ou reverências a quaisquer pessoas presentes ou que entrem; como também de todo olhar à volta, do sono e de qualquer outro comportamento indecoroso que possa perturbar o ministro ou o povo, ou impedir a si mesmos ou a outros no serviço de Deus.
Se alguém, por necessidade, for impedido de estar presente no princípio, não deve, ao entrar na congregação, entregar-se às suas devoções particulares, mas recompor-se reverentemente para unir-se à assembleia naquela ordenança de Deus que então estiver em curso.
Da Leitura Pública das Santas Escrituras
A leitura da Palavra na congregação, sendo parte do culto público de Deus (no qual reconhecemos a nossa dependência dele e a nossa sujeição a ele) e um meio por ele santificado para a edificação do seu povo, deve ser feita pelos pastores e mestres.
Todavia, os que se preparam para o ministério podem ocasionalmente tanto ler a Palavra como exercitar o seu dom de pregar na congregação, se para isso forem autorizados pelo presbitério.
Todos os livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento (mas nenhum dos que são comumente chamados Apócrifos) serão lidos publicamente na língua vulgar, segundo a melhor tradução aprovada, de modo distinto, para que todos possam ouvir e entender.
Quão grande porção se deve ler de cada vez fica à sabedoria do ministro; mas é conveniente que ordinariamente se leia um capítulo de cada Testamento em cada reunião; e às vezes mais, quando os capítulos forem curtos ou a coerência da matéria o exigir.
É necessário que todos os livros canônicos sejam lidos inteiramente, em ordem, para que o povo se familiarize melhor com todo o corpo das Escrituras; e, ordinariamente, onde a leitura de qualquer dos Testamentos terminar num Dia do Senhor, aí deve recomeçar no seguinte.
Recomendamos também a leitura mais frequente das Escrituras que aquele que lê julgar melhores para a edificação dos seus ouvintes, como o Livro dos Salmos e outros semelhantes.
Quando o ministro que lê julgar necessário expor alguma parte do que é lido, não o faça antes de terminado todo o capítulo ou salmo; e sempre se deve ter em conta o tempo, para que nem a pregação nem qualquer outra ordenança fique restringida ou se torne enfadonha. Esta regra deve ser observada em todos os outros atos públicos.
Além da leitura pública das Santas Escrituras, toda pessoa que sabe ler deve ser exortada a ler as Escrituras em particular (e todos os outros que não sabem ler, se não estiverem impedidos pela idade ou de outro modo, devem igualmente ser exortados a aprender a ler) e a ter uma Bíblia.
Da Oração Pública antes do Sermão
Depois da leitura da Palavra (e do canto do salmo), o ministro que há de pregar deve procurar que o seu próprio coração e o dos seus ouvintes sejam devidamente tocados pelos seus pecados, para que todos se lamentem, sentindo-os, diante do Senhor, e tenham fome e sede da graça de Deus em Jesus Cristo, procedendo a uma confissão mais completa do pecado, com vergonha e santa confusão de rosto; e invocar o Senhor nestes termos:
Reconhecer a nossa grande pecaminosidade: primeiro, por causa do pecado original, que (além da culpa que nos sujeita à condenação eterna) é a semente de todos os outros pecados, depravou e envenenou todas as faculdades e potências da alma e do corpo, contamina as nossas melhores ações e (se não fosse refreado, ou se os nossos corações não fossem renovados pela graça) irromperia em inumeráveis transgressões e nas maiores rebeliões contra o Senhor que jamais foram cometidas pelos mais vis dos filhos dos homens. E, em seguida, por causa dos pecados atuais: os nossos próprios pecados, os pecados dos magistrados, dos ministros e de toda a nação, dos quais somos de muitos modos cúmplices. Estes nossos pecados recebem muitas terríveis agravantes, visto que quebramos todos os mandamentos da santa, justa e boa lei de Deus, fazendo o que é proibido e deixando de fazer o que é ordenado; e isto não somente por ignorância e fraqueza, mas também mais presunçosamente, contra a luz do nosso entendimento, as advertências da nossa consciência e os impulsos do seu próprio Santo Espírito em contrário, de modo que não temos desculpa para os nossos pecados; sim, não somente desprezando as riquezas da bondade, tolerância e longanimidade de Deus, mas resistindo a muitos convites e ofertas da graça no evangelho, não nos esforçando, como devíamos, por receber Cristo em nossos corações pela fé, ou por andar dignamente diante dele em nossa vida.
Lamentar a nossa cegueira de entendimento, dureza de coração, incredulidade, impenitência, segurança carnal, tibieza, esterilidade; o não nos esforçarmos pela mortificação e pela novidade de vida, nem pelo exercício da piedade em seu poder; e que os melhores dentre nós não têm andado com Deus tão firmemente, nem guardado as suas vestes tão sem mancha, nem sido tão zelosos da sua glória e do bem dos outros, como deveríamos; e chorar aqueles outros pecados de que a congregação é particularmente culpada, não obstante as múltiplas e grandes misericórdias do nosso Deus, o amor de Cristo, a luz do evangelho e a reforma da religião, os nossos próprios propósitos, promessas, votos, o Pacto Solene e outras obrigações especiais em contrário.
Reconhecer e confessar que, assim como estamos convencidos da nossa culpa, assim também, por um profundo sentimento dela, nos julgamos indignos dos menores benefícios, muito dignos da mais ardente ira de Deus e de todas as maldições da lei e dos mais pesados juízos infligidos aos pecadores mais rebeldes; e que ele poderia com toda a justiça tirar-nos o seu reino e o seu evangelho, ferir-nos com toda espécie de juízos espirituais e temporais nesta vida, e depois lançar-nos nas trevas exteriores, no lago que arde com fogo e enxofre, onde há choro e ranger de dentes para todo o sempre.
Não obstante tudo isso, aproximar-se do trono da graça, animando-nos com a esperança de uma graciosa resposta às nossas orações, nas riquezas e na plena suficiência daquela única oblação, a satisfação e intercessão do Senhor Jesus Cristo à direita de seu Pai e nosso Pai; e, confiados nas grandíssimas e preciosas promessas de misericórdia e graça no novo pacto, por meio do mesmo Mediador dele, rogar que seja desviada a pesada ira e maldição de Deus, que não somos capazes de evitar nem de suportar; e suplicar humilde e fervorosamente misericórdia, na livre e plena remissão de todos os nossos pecados, e isso somente pelos amargos sofrimentos e preciosos méritos daquele nosso único Salvador, Jesus Cristo.
Que o Senhor se digne derramar o seu amor em nossos corações pelo Espírito Santo; selar-nos, pelo mesmo Espírito de adoção, a plena certeza do nosso perdão e reconciliação; consolar todos os que choram em Sião, falar paz ao espírito ferido e perturbado e atar os quebrantados de coração; e, quanto aos pecadores descuidados e presunçosos, que lhes abra os olhos, convença a sua consciência e os converta das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que também eles recebam o perdão dos pecados e herança entre os que são santificados pela fé em Cristo Jesus.
Juntamente com a remissão dos pecados pelo sangue de Cristo, orar pela santificação pelo seu Espírito; pela mortificação do pecado que habita em nós e muitas vezes nos tiraniza; pela vivificação dos nossos espíritos mortos com a vida de Deus em Cristo; por graça que nos torne aptos e capazes para todos os deveres do nosso procedimento e das nossas vocações para com Deus e para com os homens; por força contra as tentações; pelo uso santificado das bênçãos e das cruzes; e pela perseverança na fé e na obediência até o fim.
Orar pela propagação do evangelho e do reino de Cristo a todas as nações; pela conversão dos judeus, pela plenitude dos gentios, pela queda do Anticristo e pelo apressamento da segunda vinda de nosso Senhor; pela libertação das Igrejas aflitas do estrangeiro da tirania do partido anticristão e das cruéis opressões e blasfêmias do turco; pela bênção de Deus sobre todas as Igrejas Reformadas, especialmente sobre as Igrejas e os Reinos da Inglaterra, Escócia e Irlanda, agora mais estrita e religiosamente unidos na solene Liga e Pacto Nacional; e pelas nossas colônias nas partes remotas do mundo; mais particularmente por aquela Igreja e Reino de que somos membros, para que nele Deus estabeleça a paz e a verdade, a pureza de todas as suas ordenanças e o poder da piedade; previna e remova a heresia, o cisma, a profanação, a superstição, a segurança carnal e a infrutuosidade sob os meios da graça; cure todas as nossas rupturas e divisões; e nos preserve de violar o nosso Pacto Solene.
Orar por todos os que estão em autoridade, especialmente por Sua Majestade o Rei, para que Deus o faça rico em bênçãos, tanto em sua pessoa como em seu governo; estabeleça o seu trono na religião e na justiça; o livre de maus conselhos; e o faça instrumento bendito e glorioso para a conservação e propagação do evangelho, para o incentivo e proteção dos que fazem o bem, para o terror de todos os que fazem o mal e para o grande bem de toda a Igreja e de todos os seus reinos; pela conversão da Rainha, pela educação religiosa do Príncipe e do restante da descendência real; pelo conforto da aflita Rainha da Boêmia, irmã do nosso Soberano, e pela restituição e restabelecimento do ilustre Príncipe Carlos, Eleitor Palatino do Reno, em todos os seus domínios e dignidades; pela bênção sobre o Alto Tribunal do Parlamento (quando reunido em qualquer destes reinos, respectivamente), a nobreza, os juízes e magistrados subordinados, a fidalguia e todo o povo comum; por todos os pastores e mestres, para que Deus os encha do seu Espírito, os faça exemplarmente santos, sóbrios, justos, pacíficos e amáveis em sua vida, sãos, fiéis e poderosos em seu ministério, e acompanhe todos os seus trabalhos com abundância de êxito e bênção; e dê a todo o seu povo pastores segundo o seu próprio coração; pelas universidades e por todas as escolas e seminários religiosos da Igreja e do Estado, para que floresçam cada vez mais em erudição e piedade; pela cidade ou congregação particular, para que Deus derrame bênção sobre o ministério da Palavra, dos sacramentos e da disciplina, sobre o governo civil e sobre todas as famílias e pessoas que nela há; por misericórdia para com os aflitos sob qualquer angústia interior ou exterior; por tempo favorável e estações frutíferas, conforme a época o exigir; e para que sejam desviados os juízos que sentimos, tememos ou a que estamos sujeitos, como a fome, a peste, a espada e outros semelhantes.
E, com confiança na sua misericórdia para com toda a sua Igreja e na aceitação das nossas pessoas, pelos méritos e mediação do nosso grande Sumo Sacerdote, o Senhor Jesus, professar que é desejo das nossas almas ter comunhão com Deus no uso reverente e consciencioso das suas santas ordenanças; e, para esse fim, orar fervorosamente pela sua graça e eficaz assistência para a santificação do seu santo Sábado, o Dia do Senhor, em todos os seus deveres, públicos e particulares, tanto para nós mesmos como para todas as outras congregações do seu povo, segundo as riquezas e a excelência do evangelho neste dia celebrado e gozado.
E, porque temos sido ouvintes sem proveito nos tempos passados e agora não podemos, por nós mesmos, receber como devemos as coisas profundas de Deus, os mistérios de Jesus Cristo, que requerem discernimento espiritual, orar para que o Senhor, que ensina o que é útil, se digne graciosamente derramar o Espírito da graça, juntamente com os meios exteriores dela, fazendo-nos alcançar tal medida da excelência do conhecimento de Cristo Jesus, nosso Senhor, e, nele, das coisas que pertencem à nossa paz, que consideremos todas as coisas como esterco em comparação com ele; e que nós, provando as primícias da glória que há de ser revelada, anelemos por uma comunhão mais plena e perfeita com ele, para que, onde ele está, estejamos nós também e gozemos a plenitude daquelas alegrias e delícias que estão à sua direita para sempre.
Mais particularmente, que Deus, de modo especial, proveja o seu servo (agora chamado a dispensar o pão da vida à sua família) de sabedoria, fidelidade, zelo e eloquência, para que maneje bem a Palavra de Deus, dando a cada um a sua porção, em evidência e demonstração do Espírito e de poder; e que o Senhor circuncide os ouvidos e os corações dos ouvintes, para ouvirem, amarem e receberem com mansidão a Palavra enxertada, que é poderosa para salvar as suas almas; os faça como boa terra para receber a boa semente da Palavra; e os fortaleça contra as tentações de Satanás, os cuidados do mundo, a dureza dos seus próprios corações e tudo o mais que possa impedir o seu ouvir proveitoso e salvador; para que assim Cristo seja de tal modo formado neles e viva neles, que todos os seus pensamentos sejam levados cativos à obediência de Cristo e os seus corações confirmados em toda boa palavra e obra para sempre.
Julgamos ser esta uma ordem conveniente para as orações públicas ordinárias; mas de tal modo que o ministro possa adiar (conforme a sua prudência julgar conveniente) alguma parte destas petições para depois do sermão, ou oferecer a Deus, em sua oração antes do sermão, algumas das ações de graças adiante indicadas.
Da Pregação da Palavra
A pregação da Palavra, sendo o poder de Deus para a salvação e uma das maiores e mais excelentes obras pertencentes ao ministério do evangelho, deve ser feita de tal modo que o obreiro não tenha de que se envergonhar, mas salve tanto a si mesmo como aos que o ouvem.
Pressupõe-se (segundo as regras para a ordenação) que o ministro de Cristo seja, em boa medida, dotado para tão importante serviço: pela sua perícia nas línguas originais e nas artes e ciências que são servas da teologia; pelo seu conhecimento de todo o corpo da teologia, mas sobretudo das Santas Escrituras, tendo os seus sentidos e o seu coração nelas exercitados acima do comum dos crentes; e pela iluminação do Espírito de Deus e por outros dons de edificação, os quais (juntamente com a leitura e o estudo da Palavra) deve continuar a buscar pela oração e com coração humilde, resolvido a admitir e receber qualquer verdade ainda não alcançada, sempre que Deus lha der a conhecer. De tudo isso deve fazer uso e tirar proveito em suas preparações particulares, antes de apresentar em público o que preparou.
Ordinariamente, o assunto do seu sermão deve ser algum texto da Escritura que apresente algum princípio ou ponto da religião, ou que seja apropriado a alguma ocasião especial que surja; ou ele pode prosseguir por algum capítulo, salmo ou livro da Santa Escritura, conforme julgar conveniente.
Seja a introdução ao texto breve e clara, tirada do próprio texto ou do contexto, ou de algum lugar paralelo, ou de alguma sentença geral da Escritura.
Se o texto for longo (como às vezes tem de ser nas histórias e parábolas), dê dele um breve resumo; se curto, uma paráfrase, se necessário; em ambos os casos, atentando diligentemente para o escopo do texto e indicando os principais pontos e fundamentos de doutrina que dele há de tirar.
Ao analisar e dividir o texto, deve atender mais à ordem da matéria do que à das palavras; e não sobrecarregar no princípio a memória dos ouvintes com demasiados membros de divisão, nem perturbar os seus entendimentos com termos técnicos obscuros.
Ao tirar doutrinas do texto, o seu cuidado deve ser: primeiro, que a matéria seja a verdade de Deus; segundo, que seja uma verdade contida no texto, ou nele fundada, para que os ouvintes possam discernir como Deus a ensina dali; terceiro, que insista principalmente naquelas doutrinas que são principalmente visadas e que mais contribuem para a edificação dos ouvintes.
A doutrina deve ser expressa em termos claros; ou, se alguma coisa nela necessitar de explicação, deve ser exposta, e também deve ser esclarecida a sua dedução do texto. Os lugares paralelos da Escritura que confirmam a doutrina devem ser antes claros e pertinentes do que numerosos, e (se necessário) um tanto desenvolvidos e aplicados ao propósito em questão.
Os argumentos ou razões devem ser sólidos e, quanto possível, convincentes. As ilustrações, de qualquer espécie que sejam, devem ser cheias de luz e tais que possam levar a verdade ao coração do ouvinte com deleite espiritual.
Se parecer surgir alguma dúvida evidente, procedente da Escritura, da razão ou do preconceito dos ouvintes, é muito necessário removê-la, conciliando as aparentes diferenças, respondendo às razões e descobrindo e tirando as causas do preconceito e do engano. De outro modo, não convém deter os ouvintes propondo ou respondendo a sofismas vãos ou ímpios, os quais, assim como não têm fim, assim também o propô-los e respondê-los mais impede do que promove a edificação.
Não deve ficar na doutrina geral, por mais esclarecida e confirmada que esteja, mas levá-la ao uso especial, pela aplicação aos seus ouvintes; o que, embora seja obra de grande dificuldade para ele mesmo, requerendo muita prudência, zelo e meditação, e seja muito desagradável ao homem natural e corrupto, contudo deve esforçar-se por fazê-lo de tal modo que os seus ouvintes sintam que a Palavra de Deus é viva e eficaz, e apta para discernir os pensamentos e intenções do coração; e que, se estiver presente algum incrédulo ou ignorante, os segredos do seu coração se tornem manifestos e ele dê glória a Deus.
No uso de instrução ou informação no conhecimento de alguma verdade que é consequência da sua doutrina, pode (quando conveniente) confirmá-la com alguns argumentos firmes tirados do texto em mãos e de outros lugares da Escritura, ou da natureza daquele lugar-comum da teologia de que essa verdade é um ramo.
Na refutação de doutrinas falsas, não deve levantar da sepultura uma heresia antiga, nem mencionar sem necessidade uma opinião blasfema; mas, se o povo estiver em perigo de algum erro, deve refutá-lo solidamente e esforçar-se por satisfazer o juízo e a consciência deles contra todas as objeções.
Ao exortar aos deveres, deve, conforme vir motivo, ensinar também os meios que ajudam a cumpri-los.
Na dissuasão, na repreensão e na admoestação pública (que requerem sabedoria especial), descubra, conforme houver motivo, não somente a natureza e a grandeza do pecado, com a miséria que o acompanha, mas mostre também o perigo em que os seus ouvintes estão de ser alcançados e surpreendidos por ele, juntamente com os remédios e o melhor modo de evitá-lo.
Ao aplicar consolação, seja geral, contra todas as tentações, seja particular, contra algumas aflições ou terrores especiais, deve responder cuidadosamente às objeções que um coração perturbado e um espírito aflito possam sugerir em contrário.
Às vezes é também necessário dar alguns sinais de exame (o que é muito proveitoso, especialmente quando feito por ministros capazes e experientes, com circunspecção e prudência, e estando os sinais claramente fundados na Santa Escritura), pelos quais os ouvintes possam examinar-se a si mesmos, se alcançaram aquelas graças e cumpriram aqueles deveres a que ele exorta, ou se são culpados do pecado repreendido e estão em perigo dos juízos ameaçados, ou se são aqueles a quem pertencem as consolações propostas; para que, conforme o caso, sejam despertados e estimulados ao dever, humilhados pelas suas faltas e pecados, tocados pelo seu perigo e fortalecidos com consolação, conforme a sua condição, depois do exame, o exigir.
E, assim como não precisa desenvolver sempre todas as doutrinas que há no seu texto, assim também deve escolher sabiamente aquelas aplicações que, pela sua residência e convivência com o seu rebanho, achar mais necessárias e oportunas; e, entre estas, as que mais possam atrair as almas deles a Cristo, a fonte da luz, da santidade e da consolação.
Este método não é prescrito como necessário para todo homem ou para todo texto, mas somente recomendado, por ter sido achado, pela experiência, muito abençoado por Deus e muito útil para o entendimento e a memória do povo.
Mas o servo de Cristo, qualquer que seja o seu método, deve desempenhar todo o seu ministério:
1. Com esforço, não fazendo negligentemente a obra do Senhor.
2. Com clareza, para que os mais simples possam entender, apresentando a verdade, não com palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a cruz de Cristo não se faça vã; abstendo-se também do uso inútil de línguas desconhecidas, frases estranhas e cadências de sons e palavras, e citando com moderação sentenças de escritores eclesiásticos ou de outros escritores humanos, antigos ou modernos, por mais elegantes que sejam.
3. Com fidelidade, visando à honra de Cristo e à conversão, edificação e salvação do povo, não ao seu próprio ganho ou glória; nada ocultando que possa promover esses santos fins, dando a cada um a sua porção e tratando a todos com igual consideração, sem negligenciar os mais humildes nem poupar os maiores em seus pecados.
4. Com sabedoria, formulando todas as suas doutrinas, exortações e especialmente as suas repreensões do modo mais apto para prevalecer, mostrando todo o devido respeito à pessoa e à posição de cada um, e não misturando nisso a sua própria paixão ou amargura.
5. Com gravidade, como convém à Palavra de Deus, evitando todo gesto, voz e expressões que possam dar ocasião à corrupção dos homens para desprezá-lo, a ele e ao seu ministério.
6. Com afeição amorosa, para que o povo veja que tudo procede do seu zelo piedoso e do sincero desejo de lhe fazer bem. E
7. Como ensinado por Deus e persuadido em seu próprio coração de que tudo o que ensina é a verdade de Cristo; e andando diante do seu rebanho como exemplo para ele nisso; recomendando fervorosamente, tanto em particular como em público, os seus trabalhos à bênção de Deus; e vigiando atentamente sobre si mesmo e sobre o rebanho de que o Senhor o fez supervisor. Assim a doutrina da verdade será preservada incorrupta, muitas almas serão convertidas e edificadas, e ele mesmo receberá múltiplas consolações dos seus trabalhos, até nesta vida, e depois a coroa de glória que lhe está reservada no mundo vindouro.
Onde houver mais de um ministro numa congregação, e estes de dons diferentes, cada um poderá aplicar-se mais especialmente à doutrina ou à exortação, segundo o dom em que mais se distingue e conforme entre si concordarem.
Da Oração depois do Sermão
Terminado o sermão, o ministro deve:
Dar graças pelo grande amor de Deus em nos enviar seu Filho Jesus Cristo; pela comunicação do seu Santo Espírito; pela luz e liberdade do glorioso evangelho e pelas ricas e celestiais bênçãos nele reveladas, a saber, a eleição, a vocação, a adoção, a justificação, a santificação e a esperança da glória; pela admirável bondade de Deus em livrar a terra das trevas e da tirania anticristãs, e por todos os outros livramentos nacionais; pela reforma da religião; pelo Pacto; e por muitas bênçãos temporais.
Orar pela continuação do evangelho e de todas as suas ordenanças, em sua pureza, poder e liberdade. Converter os pontos principais e mais úteis do sermão em algumas poucas petições, e orar para que ele permaneça no coração e produza fruto.
Orar pela preparação para a morte e para o juízo, e pela vigilância quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Rogar a Deus o perdão das iniquidades das nossas coisas santas e a aceitação do nosso sacrifício espiritual, pelo mérito e mediação do nosso grande Sumo Sacerdote e Salvador, o Senhor Jesus Cristo.
E, porque a oração que Cristo ensinou aos seus discípulos não é somente um modelo de oração, mas é ela mesma uma oração muito abrangente, recomendamos que seja também usada nas orações da Igreja.
E, visto que, na administração dos sacramentos, na celebração de jejuns públicos e dias de ação de graças, e em outras ocasiões especiais que possam fornecer matéria de petições e ações de graças especiais, é necessário expressar algo em nossas orações públicas (como neste tempo é nosso dever orar por uma bênção sobre a Assembleia de Teólogos e sobre os exércitos por mar e por terra, para a defesa do Rei, do Parlamento e do Reino), cada ministro deve, nisso, aplicar-se em sua oração antes ou depois do sermão a essas ocasiões; mas, quanto ao modo, fica à sua liberdade, conforme Deus o dirigir e habilitar, para cumprir o seu dever com piedade e sabedoria.
Terminada a oração, cante-se um salmo, se puder fazer-se convenientemente. Depois disso (a não ser que deva seguir-se alguma outra ordenança de Cristo que diga respeito à congregação naquele momento), despeça o ministro a congregação com uma solene bênção.
Da Administração dos Sacramentos: e primeiro, do Batismo
O batismo, assim como não deve ser adiado sem necessidade, assim também não deve em caso algum ser administrado por qualquer pessoa particular, mas por um ministro de Cristo, chamado para ser despenseiro dos mistérios de Deus.
Nem deve ser administrado em lugares particulares, ou privadamente, mas no lugar do culto público e diante da congregação, onde o povo possa mais convenientemente ver e ouvir; e não nos lugares onde, no tempo do papado, as pias batismais eram colocadas de modo impróprio e supersticioso.
A criança que há de ser batizada, depois de dado aviso ao ministro no dia anterior, deve ser apresentada pelo pai ou (em caso de sua ausência necessária) por algum amigo cristão em seu lugar, declarando o seu sincero desejo de que a criança seja batizada.
Antes do batismo, o ministro deve usar algumas palavras de instrução sobre a instituição, a natureza, o uso e os fins deste sacramento, mostrando:
Que foi instituído por nosso Senhor Jesus Cristo; que é um selo do pacto da graça, do nosso enxerto em Cristo e da nossa união com ele, da remissão dos pecados, da regeneração, da adoção e da vida eterna; que a água no batismo representa e significa tanto o sangue de Cristo, que tira toda a culpa do pecado, original e atual, como a virtude santificadora do Espírito de Cristo contra o domínio do pecado e a corrupção da nossa natureza pecaminosa; que o batizar, ou aspergir e lavar com água, significa a purificação do pecado pelo sangue e pelo mérito de Cristo, juntamente com a mortificação do pecado e o ressurgir do pecado para a novidade de vida, em virtude da morte e ressurreição de Cristo; que a promessa é feita aos crentes e à sua descendência, e que a descendência e a posteridade dos fiéis, nascidas dentro da Igreja, têm pelo seu nascimento parte no pacto e direito ao selo dele e aos privilégios exteriores da Igreja sob o evangelho, não menos que os filhos de Abraão no tempo do Antigo Testamento, sendo o pacto da graça, em substância, o mesmo, e sendo a graça de Deus e a consolação dos crentes mais abundantes do que antes; que o Filho de Deus admitiu as criancinhas à sua presença, abraçando-as e abençoando-as, dizendo: Porque dos tais é o reino de Deus; que as crianças, pelo batismo, são solenemente recebidas no seio da Igreja visível, distinguidas do mundo e dos que estão de fora, e unidas aos crentes; e que todos os que são batizados em nome de Cristo renunciam ao diabo, ao mundo e à carne, e pelo seu batismo estão obrigados a combatê-los; que são cristãos e federalmente santos antes do batismo, e por isso são batizados; que a graça e a virtude interiores do batismo não estão presas àquele exato momento em que é administrado, e que o fruto e o poder dele se estendem a todo o curso da nossa vida; e que o batismo exterior não é tão necessário que, por falta dele, a criança esteja em perigo de condenação, ou os pais sejam culpados, se não desprezarem nem negligenciarem a ordenança de Cristo quando e onde ela puder ser obtida.
Nestas instruções, ou noutras semelhantes, o ministro deve usar da sua própria liberdade e piedosa sabedoria, conforme o exigirem a ignorância ou os erros quanto à doutrina do batismo e a edificação do povo.
Deve também admoestar todos os presentes:
A olharem para o seu próprio batismo; a se arrependerem dos seus pecados contra o seu pacto com Deus; a despertarem a sua fé; a aproveitarem o seu batismo e fazerem dele o devido uso, bem como do pacto por ele selado entre Deus e as suas almas.
Deve exortar o pai:
A considerar a grande misericórdia de Deus para com ele e o seu filho; a criar o filho no conhecimento dos fundamentos da religião cristã e na disciplina e admoestação do Senhor; e fazê-lo saber o perigo da ira de Deus para si mesmo e para o filho, se for negligente; exigindo-lhe promessa solene de cumprir o seu dever.
Feito isso, deve-se também unir a oração à palavra da instituição, para santificar a água para este uso espiritual; e o ministro deve orar nestes termos ou em termos semelhantes:
Que o Senhor, que não nos deixou como estranhos, sem o pacto da promessa, mas nos chamou aos privilégios das suas ordenanças, se digne graciosamente santificar e abençoar neste momento a sua própria ordenança do batismo; que una o batismo interior do seu Espírito ao batismo exterior da água; que faça deste batismo, para a criança, um selo da adoção, da remissão do pecado, da regeneração e da vida eterna, e de todas as outras promessas do pacto da graça; que a criança seja plantada na semelhança da morte e ressurreição de Cristo; e que, sendo nela destruído o corpo do pecado, sirva a Deus em novidade de vida todos os seus dias.
Então o ministro deve perguntar o nome da criança, e, sendo-lhe dito, deve dizer (chamando a criança pelo seu nome):
Eu te batizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.
Enquanto pronuncia estas palavras, deve batizar a criança com água; o que, quanto ao modo de fazê-lo, é não somente lícito, mas suficiente e mais conveniente que se faça derramando ou aspergindo a água sobre o rosto da criança, sem acrescentar qualquer outra cerimônia.
Feito isso, deve dar graças e orar nestes termos ou em termos semelhantes:
Reconhecendo com toda a gratidão que o Senhor é verdadeiro e fiel em guardar o pacto e a misericórdia; que é bom e gracioso, não somente em nos contar entre os seus santos, mas também em se agradar de conceder aos nossos filhos este singular sinal e distintivo do seu amor em Cristo; que, em sua verdade e especial providência, ele traz diariamente alguns ao seio da sua Igreja, para serem participantes dos seus inestimáveis benefícios, adquiridos pelo sangue do seu amado Filho, para a continuação e o crescimento da sua Igreja.
E orando para que o Senhor continue ainda, e confirme cada dia mais e mais, este seu inefável favor; que receba a criança agora batizada, e solenemente introduzida na família da fé, sob a sua paternal tutela e defesa, e se lembre dela com o favor que mostra ao seu povo; que, se ela for tirada desta vida em sua infância, o Senhor, que é rico em misericórdia, se agrade de recebê-la na glória; e, se viver e chegar aos anos de discernimento, que o Senhor de tal modo a ensine pela sua Palavra e pelo seu Espírito, e torne eficaz para ela o seu batismo, e de tal modo a sustente pelo seu poder e graça divinos, que pela fé prevaleça contra o diabo, o mundo e a carne, até que por fim obtenha plena e final vitória, e assim seja guardada pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação, por Jesus Cristo nosso Senhor.
Da Celebração da Comunhão, ou Sacramento da Ceia do Senhor
A Comunhão, ou Ceia do Senhor, deve ser celebrada frequentemente; mas com que frequência, isso pode ser considerado e determinado pelos ministros e outros governantes da Igreja de cada congregação, conforme acharem mais conveniente para o conforto e a edificação do povo confiado aos seus cuidados. E, quando houver de ser administrada, julgamos conveniente que o seja depois do sermão da manhã.
Os ignorantes e os escandalosos não estão aptos para receber este sacramento da Ceia do Senhor.
Onde este sacramento não puder convenientemente ser administrado com frequência, é necessário que se dê aviso público no Dia do Senhor anterior à sua administração; e que, nesse dia ou em algum dia dessa semana, se ensine alguma coisa a respeito desta ordenança, da devida preparação para ela e da participação nela, para que, pelo uso diligente de todos os meios santificados por Deus para esse fim, tanto em público como em particular, todos venham mais bem preparados para aquele banquete celestial.
Chegado o dia da administração, o ministro, tendo terminado o seu sermão e a sua oração, fará uma breve exortação:
Expondo o inestimável benefício que temos por este sacramento, juntamente com os fins e o uso dele; mostrando a grande necessidade que temos de renovar por ele as nossas consolações e forças nesta nossa peregrinação e guerra; quão necessário é que nos aproximemos dele com conhecimento, fé, arrependimento, amor e com almas famintas e sedentas de Cristo e dos seus benefícios; e quão grande é o perigo de comer e beber indignamente.
Em seguida, deve, em nome de Cristo, de um lado, advertir todos os que são ignorantes, escandalosos, profanos, ou que vivem em algum pecado ou ofensa contra o seu conhecimento ou consciência, para que não presumam aproximar-se daquela santa mesa, mostrando-lhes que aquele que come e bebe indignamente come e bebe juízo para si mesmo; e, de outro lado, deve de modo especial convidar e animar a virem à Mesa do Senhor todos os que labutam sob o sentimento do peso dos seus pecados e do temor da ira, e que desejam alcançar maior progresso na graça do que até agora puderam alcançar; assegurando-lhes, no mesmo nome, alívio, refrigério e força para as suas almas fracas e cansadas.
Depois desta exortação, advertência e convite, estando a mesa previamente coberta com decência e colocada de modo tão conveniente que os comungantes possam ordenadamente sentar-se ao redor dela ou junto dela, o ministro deve começar o ato santificando e abençoando os elementos do pão e do vinho postos diante dele (o pão em vasos decentes e convenientes, preparado de tal modo que, sendo partido por ele e dado, possa ser distribuído entre os comungantes; o vinho também em cálices grandes), tendo primeiro mostrado em poucas palavras que esses elementos, de outro modo comuns, estão agora separados e santificados para este santo uso pela palavra da instituição e pela oração.
Leiam-se as palavras da instituição tiradas dos Evangelistas, ou da primeira Epístola do apóstolo Paulo aos Coríntios, capítulo 11, versículo 23: "Porque eu recebi do Senhor..." etc., até o versículo 27; as quais o ministro pode, quando julgar necessário, explicar e aplicar.
Seja a oração, ação de graças ou bênção do pão e do vinho neste sentido:
Com humilde e sincero reconhecimento da grandeza da nossa miséria, da qual nem homem nem anjo era capaz de nos livrar, e da nossa grande indignidade da menor de todas as misericórdias de Deus, dar graças a Deus por todos os seus benefícios, e especialmente por aquele grande benefício da nossa redenção, o amor de Deus Pai, os sofrimentos e méritos do Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, pelos quais somos libertados; e por todos os meios da graça, a Palavra e os sacramentos, e por este sacramento em particular, pelo qual Cristo e todos os seus benefícios nos são aplicados e selados; os quais, não obstante terem sido negados a outros, nos são continuados com grande misericórdia, depois de tanto e tão longo abuso de todos eles.
Professar que não há debaixo do céu outro nome pelo qual possamos ser salvos senão o nome de Jesus Cristo, somente por meio de quem recebemos liberdade e vida, temos acesso ao trono da graça, somos admitidos a comer e beber à sua própria mesa e somos selados pelo seu Espírito para a certeza da felicidade e da vida eterna.
Orar fervorosamente a Deus, o Pai de todas as misericórdias e Deus de toda consolação, para que se digne conceder a sua graciosa presença e a operação eficaz do seu Espírito em nós, e assim santificar estes elementos, tanto do pão como do vinho, e abençoar a sua própria ordenança, para que recebamos pela fé o corpo e o sangue de Jesus Cristo, crucificado por nós, e assim nos alimentemos dele, para que ele seja um conosco e nós com ele, para que ele viva em nós e nós nele e para ele, que nos amou e se entregou a si mesmo por nós.
Tudo isso deve ele esforçar-se por fazer com afeições condizentes e próprias de um ato tão santo, e despertar afeições semelhantes no povo.
Estando agora os elementos santificados pela Palavra e pela oração, o ministro, estando à mesa, deve tomar o pão em sua mão e dizer, com estas expressões (ou outras semelhantes, usadas por Cristo ou pelo seu apóstolo nesta ocasião):
Segundo a santa instituição, o mandamento e o exemplo do nosso bendito Salvador Jesus Cristo, eu tomo este pão e, tendo dado graças, parto-o e vo-lo dou (aqui o ministro, que também deve ele mesmo comungar, deve partir o pão e dá-lo aos comungantes): Tomai, comei; este é o corpo de Cristo, que é partido por vós; fazei isto em memória dele.
Do mesmo modo, o ministro deve tomar o cálice e dizer, com estas expressões (ou outras semelhantes, usadas por Cristo ou pelo apóstolo na mesma ocasião):
Segundo a instituição, o mandamento e o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo, eu tomo este cálice e vo-lo dou (aqui ele o dá aos comungantes): Este cálice é o novo testamento no sangue de Cristo, que é derramado para remissão dos pecados de muitos; bebei dele todos.
Depois que todos tiverem comungado, o ministro pode, em poucas palavras, lembrá-los:
Da graça de Deus em Jesus Cristo apresentada neste sacramento, e exortá-los a andar dignamente dela.
O ministro deve dar solenes graças a Deus:
Pela sua rica misericórdia e inestimável bondade a eles concedidas naquele sacramento; e rogar perdão pelas falhas de todo o serviço e o gracioso auxílio do seu bom Espírito, pelo qual sejam habilitados a andar na força daquela graça, como convém aos que receberam tão grandes penhores de salvação.
A coleta para os pobres deve ser ordenada de tal modo que nenhuma parte do culto público seja por ela impedida.
Da Santificação do Dia do Senhor
O Dia do Senhor deve ser lembrado de antemão, de tal modo que todos os negócios mundanos das nossas vocações ordinárias sejam ordenados, e deixados de lado com tal antecedência e oportunidade, que não sejam impedimento para a devida santificação do dia quando ele chegar.
Todo o dia deve ser celebrado como santo ao Senhor, tanto em público como em particular, como sendo o Sábado cristão. Para esse fim é necessário que haja uma santa cessação, ou descanso, durante todo o dia, de todos os trabalhos desnecessários, e uma abstenção não somente de todos os jogos e passatempos, mas também de todas as palavras e pensamentos mundanos.
Que as refeições nesse dia sejam ordenadas de tal modo que nem os servos sejam desnecessariamente retidos longe do culto público de Deus, nem quaisquer outras pessoas impedidas de santificar esse dia.
Que haja preparação particular de cada pessoa e família, por meio de oração por si mesmas, pela assistência de Deus ao ministro e por uma bênção sobre o seu ministério, e por outros exercícios santos que possam dispô-las ainda mais para uma comunhão mais confortadora com Deus nas suas ordenanças públicas.
Que todo o povo se reúna para o culto público com tal antecedência que toda a congregação esteja presente no princípio e, com um só coração, se una solenemente em todas as partes do culto público; e que não se retire senão depois da bênção.
Que o tempo que ficar livre entre as reuniões solenes da congregação em público, ou depois delas, seja empregado em leitura, meditação, repetição dos sermões (especialmente chamando as suas famílias a darem conta do que ouviram) e catequização delas, conversas santas, oração por uma bênção sobre as ordenanças públicas, canto de salmos, visita aos enfermos, socorro aos pobres e outros deveres semelhantes de piedade, caridade e misericórdia, considerando o Sábado um deleite.
Da Solenização do Matrimônio
Embora o matrimônio não seja sacramento, nem coisa peculiar à Igreja de Deus, mas comum ao gênero humano e de interesse público em todo Estado, contudo, porque os que se casam devem casar-se no Senhor e têm especial necessidade de instrução, direção e exortação da Palavra de Deus ao entrarem numa condição tão nova, e da bênção de Deus sobre eles nela, julgamos conveniente que o matrimônio seja solenizado por um legítimo ministro da Palavra, para que ele os aconselhe de acordo com isso e ore por uma bênção sobre eles.
O matrimônio deve ser somente entre um homem e uma mulher; e estes devem ser tais que não estejam dentro dos graus de consanguinidade ou afinidade proibidos pela Palavra de Deus. E as partes devem ter idade de discernimento, aptas para fazer a sua própria escolha ou para, com bons fundamentos, dar o seu consentimento mútuo.
Antes de se solenizar o matrimônio entre quaisquer pessoas, o seu propósito de casamento será publicado pelo ministro em três diferentes Dias do Senhor na congregação, no lugar ou nos lugares da sua residência mais habitual e constante, respectivamente. E desta publicação o ministro que há de uni-los em matrimônio deverá ter suficiente testemunho antes de proceder à solenização do matrimônio.
Antes dessa publicação do seu propósito (se as partes forem menores de idade), o consentimento dos pais, ou de outros sob cuja autoridade estejam (no caso de os pais terem falecido), deve ser comunicado aos oficiais da Igreja daquela congregação, para ser registrado.
O mesmo deve ser observado no procedimento de todos os outros que, embora maiores de idade, tenham os pais vivos, quanto ao seu primeiro casamento. E, em casamentos posteriores de qualquer dessas partes, serão exortadas a não contrair matrimônio sem primeiro dar conhecimento disso a seus pais (se puder fazer-se convenientemente), procurando obter o seu consentimento.
Os pais não devem forçar os seus filhos a casar-se sem o livre consentimento deles, nem negar o seu próprio consentimento sem justa causa.
Depois de assim publicado o propósito ou contrato de casamento, o casamento não deve ser adiado por muito tempo. Portanto, o ministro, tendo recebido aviso conveniente e nada sendo objetado que o impeça, deve solenizá-lo publicamente no lugar designado pela autoridade para o culto público, diante de um número competente de testemunhas dignas de crédito, em alguma hora conveniente do dia, em qualquer época do ano, exceto num dia de humilhação pública. E aconselhamos que não seja no Dia do Senhor.
E, porque todas as relações são santificadas pela Palavra e pela oração, o ministro deve orar por uma bênção sobre eles, neste sentido:
Reconhecendo os nossos pecados, pelos quais nos tornamos menores do que a menor de todas as misericórdias de Deus e o provocamos a amargurar todas as nossas consolações, rogar fervorosamente ao Senhor, em nome de Cristo (cuja presença e favor são a felicidade de toda condição e adoçam toda relação), que seja a porção destes que agora vão ser unidos no honroso estado do matrimônio, o pacto do seu Deus, e que os reconheça e aceite em Cristo; e que, assim como os uniu pela sua providência, os santifique pelo seu Espírito, dando-lhes uma nova disposição de coração apropriada ao seu novo estado, enriquecendo-os com todas as graças pelas quais possam cumprir os deveres, gozar as consolações, suportar os cuidados e resistir às tentações que acompanham essa condição, como convém a cristãos.
Terminada a oração, convém que o ministro lhes declare brevemente, pela Escritura:
A instituição, o uso e os fins do matrimônio, com os deveres conjugais que, com toda a fidelidade, devem cumprir um para com o outro; exortando-os a estudar a santa Palavra de Deus, para que aprendam a viver pela fé e a estar contentes no meio de todos os cuidados e dificuldades do matrimônio, santificando o nome de Deus num uso grato, sóbrio e santo de todas as consolações conjugais, orando muito um com o outro e um pelo outro, vigiando um sobre o outro e estimulando-se mutuamente ao amor e às boas obras, e vivendo juntos como herdeiros da graça da vida.
Depois de exortar solenemente as pessoas que vão casar-se, diante do grande Deus, que sonda todos os corações e a quem devem prestar estrita conta no último dia, a que, se qualquer delas souber de alguma causa, por contrato anterior ou de outro modo, pela qual não possam licitamente proceder ao matrimônio, a declarem agora, o ministro (se não for declarado impedimento algum) fará, primeiro, que o homem tome a mulher pela mão direita, dizendo estas palavras:
Eu, N., tomo a ti, N., por minha esposa, e, na presença de Deus e diante desta congregação, prometo e pactuo ser para ti um marido amoroso e fiel, até que Deus nos separe pela morte.
Então a mulher tomará o homem pela mão direita e dirá estas palavras:
Eu, N., tomo a ti, N., por meu marido, e, na presença de Deus e diante desta congregação, prometo e pactuo ser para ti uma esposa amorosa, fiel e obediente, até que Deus nos separe pela morte.
Então, sem qualquer outra cerimônia, o ministro, diante da congregação, os declarará marido e mulher, segundo a ordenação de Deus; e assim concluirá o ato com oração neste sentido:
Que o Senhor se agrade de acompanhar com a sua bênção a sua própria ordenança, suplicando-lhe que enriqueça as pessoas agora casadas, tanto com outros penhores do seu amor como particularmente com as consolações e os frutos do matrimônio, para louvor da sua abundante misericórdia, em Cristo Jesus e por meio dele.
Deve-se manter cuidadosamente um registro, no qual os nomes das partes assim casadas, com a data do seu casamento, sejam logo devidamente lançados num livro destinado a esse fim, para consulta de todos a quem possa interessar.
Da Visitação dos Enfermos
É dever do ministro não somente ensinar em público o povo confiado aos seus cuidados, mas também, em particular e individualmente, admoestá-lo, exortá-lo, repreendê-lo e consolá-lo em todas as ocasiões oportunas, tanto quanto o seu tempo, as suas forças e a sua segurança pessoal o permitirem.
Deve admoestá-los a se prepararem para a morte em tempo de saúde; e, para esse fim, devem conversar frequentemente com o seu ministro sobre o estado das suas almas; e, em tempos de enfermidade, solicitar o seu conselho e ajuda a tempo e oportunamente, antes que lhes faltem as forças e o entendimento.
Os tempos de enfermidade e aflição são oportunidades especiais postas por Deus em suas mãos para ministrar uma palavra oportuna às almas cansadas; porque então a consciência dos homens está, ou deveria estar, mais desperta para considerarem o seu estado espiritual para a eternidade; e Satanás também se aproveita dessa ocasião para carregá-los ainda mais com tentações penosas e pesadas. Portanto, o ministro, sendo chamado e indo ao enfermo, deve aplicar-se com toda ternura e amor a ministrar algum bem espiritual à sua alma, neste sentido:
Pode, partindo da consideração da enfermidade presente, instruí-lo pela Escritura de que as doenças não vêm por acaso, nem somente por desarranjos do corpo, mas pela sábia e ordenada direção da boa mão de Deus para cada pessoa em particular que é atingida por elas; e de que, quer lhe seja imposta por desagrado pelo pecado, para a sua correção e emenda, quer para prova e exercício das suas graças, quer para outros fins especiais e excelentes, todos os seus sofrimentos se converterão em proveito seu e cooperarão para o seu bem, se ele se esforçar sinceramente por fazer um uso santificado da visitação de Deus, não desprezando a sua disciplina nem se cansando da sua correção.
Se suspeitar que ele é ignorante, deve examiná-lo nos princípios da religião, especialmente acerca do arrependimento e da fé; e, conforme vir motivo, instruí-lo sobre a natureza, o uso, a excelência e a necessidade dessas graças; como também acerca do pacto da graça e de Cristo, o Filho de Deus, Mediador dele, e acerca da remissão dos pecados pela fé nele.
Deve exortar o enfermo a examinar-se a si mesmo, a esquadrinhar e provar os seus caminhos passados e o seu estado diante de Deus.
E, se o enfermo declarar algum escrúpulo, dúvida ou tentação que esteja sobre ele, devem ser-lhe dadas instruções e soluções para satisfazê-lo e tranquilizá-lo.
Se parecer que ele não tem o devido sentimento dos seus pecados, devem empregar-se esforços para convencê-lo dos seus pecados, da culpa e do merecimento deles, da imundícia e poluição que a alma contrai por eles, e da maldição da lei e da ira de Deus que lhes são devidas; para que seja verdadeiramente tocado por eles e humilhado por causa deles; e, ao mesmo tempo, mostrar-lhe o perigo de adiar o arrependimento e de negligenciar a salvação, em qualquer tempo em que for oferecida, para despertar a sua consciência e tirá-lo de uma condição estúpida e descuidada, a fim de que apreenda a justiça e a ira de Deus, diante de quem ninguém pode subsistir senão aquele que, estando perdido em si mesmo, se apega a Cristo pela fé.
Se ele tiver procurado andar nos caminhos da santidade e servir a Deus com retidão, ainda que não sem muitas faltas e fraquezas; ou se o seu espírito estiver quebrantado pelo sentimento do pecado, ou abatido pela falta do sentimento do favor de Deus, então convirá levantá-lo, apresentando-lhe a gratuidade e a plenitude da graça de Deus, a suficiência da justiça em Cristo e as graciosas ofertas do evangelho, de que todos os que se arrependem e creem de todo o coração na misericórdia de Deus por meio de Cristo, renunciando à sua própria justiça, terão vida e salvação nele. Pode ser também útil mostrar-lhe que a morte nada tem de mal espiritual a ser temido pelos que estão em Cristo, porque o pecado, o aguilhão da morte, foi tirado por Cristo, o qual livrou todos os que são seus da escravidão do medo da morte, triunfou sobre a sepultura, nos deu a vitória e ele mesmo entrou na glória para preparar lugar para o seu povo; de modo que nem a vida nem a morte poderão separá-los do amor de Deus em Cristo, no qual tais pessoas estão seguras de que, embora agora tenham de ser postas no pó, alcançarão uma alegre e gloriosa ressurreição para a vida eterna.
Pode também dar-se-lhe conselho para que, assim como se guarde de uma persuasão mal fundada quanto à misericórdia ou à boa condição em que se acha para o céu, assim também renuncie a todo mérito em si mesmo e se lance inteiramente sobre Deus para alcançar misericórdia, somente pelos méritos e mediação de Jesus Cristo, que se comprometeu a nunca rejeitar os que vêm a ele em verdade e sinceridade. Deve-se também ter cuidado para que o enfermo não seja lançado no desespero por uma representação tão severa da ira de Deus que lhe é devida pelos seus pecados, que não seja suavizada por uma oportuna apresentação de Cristo e do seu mérito como porta de esperança para todo crente arrependido.
Quando o enfermo estiver mais tranquilo, puder ser menos perturbado e os outros serviços necessários a ele forem menos impedidos, o ministro, se lhe for pedido, orará com ele e por ele neste sentido:
Confessando e lamentando o pecado, original e atual, e a miserável condição de todos por natureza, como sendo filhos da ira e estando debaixo da maldição; reconhecendo que todas as doenças, enfermidades, a morte e o próprio inferno são os resultados e efeitos próprios dele; implorando a misericórdia de Deus para o enfermo, pelo sangue de Cristo; suplicando que Deus lhe abra os olhos, lhe descubra os seus pecados, o faça ver-se perdido em si mesmo, lhe dê a conhecer a causa por que Deus o fere, revele Jesus Cristo à sua alma para justiça e vida, lhe dê o seu Santo Espírito para criar e fortalecer a fé, para se apegar a Cristo, para operar nele evidências consoladoras do seu amor, para armá-lo contra as tentações, para desprender o seu coração do mundo, para santificar a sua presente visitação, para lhe dar paciência e força para suportá-la e para lhe dar perseverança na fé até o fim.
Que, se aprouver a Deus acrescentar dias à sua vida, ele se digne abençoar e santificar todos os meios da sua recuperação, remover a doença, renovar as suas forças e habilitá-lo a andar dignamente diante de Deus, pela fiel lembrança e diligente observância dos votos e promessas de santidade e obediência que os homens costumam fazer em tempos de enfermidade, para que glorifique a Deus no restante da sua vida.
E, se Deus tiver determinado terminar os seus dias pela presente visitação, que ele encontre tal evidência do perdão de todos os seus pecados, da sua parte em Cristo e da vida eterna por Cristo, que o seu homem interior se renove enquanto o seu homem exterior se desgasta; para que contemple a morte sem temor, se lance inteiramente sobre Cristo sem dúvida, deseje partir e estar com Cristo, e assim alcance o fim da sua fé, a salvação da sua alma, somente pelos méritos e intercessão do Senhor Jesus Cristo, nosso único Salvador e todo-suficiente Redentor.
O ministro deve também admoestá-lo (conforme houver motivo) a pôr em ordem a sua casa, para assim prevenir inconvenientes; a cuidar do pagamento das suas dívidas e fazer restituição ou reparação onde tiver causado algum dano; a reconciliar-se com aqueles com quem tiver estado em desavença; e a perdoar plenamente a todos os homens as suas ofensas contra ele, assim como espera o perdão da mão de Deus.
Por último, o ministro pode aproveitar a presente ocasião para exortar os que estão ao redor do enfermo a considerarem a sua própria mortalidade, a voltarem para o Senhor e fazerem a paz com ele; a se prepararem, em tempo de saúde, para a enfermidade, a morte e o juízo; e a esperarem assim todos os dias do seu tempo determinado, até que venha a sua mudança, para que, quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, também eles se manifestem com ele em glória.
Do Sepultamento dos Mortos
Quando alguma pessoa partir desta vida, seja o corpo do defunto, no dia do sepultamento, acompanhado com decência desde a casa até o lugar designado para o sepultamento público, e ali imediatamente sepultado, sem qualquer cerimônia.
E, porque os costumes de ajoelhar-se e orar junto ao cadáver, ou voltados para ele, e outros usos semelhantes no lugar em que ele jaz, antes de ser levado à sepultura, são supersticiosos; e porque o orar, o ler e o cantar, tanto a caminho da sepultura como junto a ela, têm sido grosseiramente abusados, não trazem benefício algum aos mortos e têm sido de muitos modos prejudiciais aos vivos, por isso ponham-se de lado todas essas coisas.
Todavia, julgamos muito conveniente que os amigos cristãos que acompanham o corpo do defunto até o lugar designado para o sepultamento público se apliquem a meditações e conversas apropriadas à ocasião; e que o ministro, assim como em outras ocasiões, também nesta, se estiver presente, possa lembrá-los do seu dever.
Que isto não se estenda a negar quaisquer atenções ou distinções civis no sepultamento, apropriadas à posição e condição da pessoa falecida enquanto viveu.
Do Jejum Público Solene
Quando alguns grandes e notáveis juízos são infligidos a um povo, ou estão evidentemente iminentes, ou são notoriamente merecidos por algumas provocações extraordinárias; como também quando se deve buscar e obter alguma bênção especial, o jejum público solene (que deve durar o dia inteiro) é um dever que Deus espera daquela nação ou povo.
O jejum religioso requer abstinência total, não somente de todo alimento (a não ser que a fraqueza corporal manifestamente impossibilite de resistir até o fim do jejum, caso em que se pode tomar alguma coisa, mas com muita moderação, para sustentar a natureza quando prestes a desfalecer), mas também de todo trabalho, conversa e pensamento mundanos, e de todos os deleites corporais (ainda que lícitos em outros tempos), de vestes ricas, ornamentos e coisas semelhantes, durante o jejum; e muito mais de tudo quanto, por sua natureza ou uso, seja escandaloso e ofensivo, como o vestuário vistoso, os trajes e gestos lascivos e outras vaidades de qualquer dos sexos; as quais recomendamos a todos os ministros, em seus lugares, que repreendam diligente e zelosamente, assim como em outros tempos, também especialmente num jejum, sem acepção de pessoas, conforme houver ocasião.
Antes da reunião pública, cada família e cada pessoa, à parte, devem empregar em particular todo cuidado religioso para preparar os seus corações para uma obra tão solene, e devem chegar cedo à congregação.
Uma porção tão grande do dia quanto convenientemente se puder deve ser empregada na leitura pública e na pregação da Palavra, com o canto de salmos próprios para despertar afeições apropriadas a tal dever; mas especialmente em oração, nestes termos ou em termos semelhantes:
Dando glória à grande majestade de Deus, Criador, Preservador e supremo Governador de todo o mundo, para que assim sejamos mais tocados de santa reverência e temor diante dele. Reconhecendo as suas múltiplas, grandes e ternas misericórdias, especialmente para com a Igreja e a nação, para mais eficazmente abrandar e humilhar os nossos corações diante dele. Confessando humildemente pecados de toda espécie, com as suas diversas agravantes; justificando os justos juízos de Deus, como sendo muito menores do que os nossos pecados merecem; contudo implorando humilde e fervorosamente a sua misericórdia e graça para nós mesmos, para a Igreja e a nação, para o nosso Rei e todos os que estão em autoridade, e para todos os outros por quem estamos obrigados a orar (conforme o exigir a necessidade presente), com mais especial insistência e amplitude do que em outros tempos. Aplicando pela fé as promessas e a bondade de Deus para o perdão, o socorro e o livramento dos males sentidos, temidos ou merecidos, e para a obtenção das bênçãos de que necessitamos e que esperamos; juntamente com a entrega de nós mesmos, inteiramente e para sempre, ao Senhor.
Em tudo isto os ministros, que são a boca do povo diante de Deus, devem falar de tal modo do coração, depois de séria e completa premeditação, que tanto eles mesmos como o seu povo sejam muito tocados e até derretidos por isso, especialmente com tristeza pelos seus pecados, para que seja de fato um dia de profunda humilhação e aflição da alma.
Deve fazer-se escolha especial das Escrituras a serem lidas e dos textos para a pregação que melhor possam mover os corações dos ouvintes para a obra especial do dia e mais os disponham à humilhação e ao arrependimento; insistindo mais naqueles pontos particulares que a observação e a experiência de cada ministro lhe dizem ser mais conducentes à edificação e reforma da congregação a que prega.
Antes do encerramento dos deveres públicos, o ministro deve, em seu nome e no do povo, comprometer o seu coração e o deles a serem do Senhor, com propósito e resolução declarados de reformar tudo quanto houver de errado entre eles, e mais particularmente aqueles pecados de que tiverem sido mais notavelmente culpados; e de se aproximarem mais de Deus e andarem com ele mais estreita e fielmente, em nova obediência, do que nunca antes.
Deve também admoestar o povo, com toda insistência, de que a obra daquele dia não termina com os deveres públicos dele, mas que devem aproveitar de tal modo o restante do dia, e de toda a sua vida, reforçando em si mesmos e em suas famílias, em particular, todas aquelas afeições e resoluções piedosas que professaram em público, que estas se firmem em seus corações para sempre, e eles mesmos sintam mais sensivelmente que Deus aceitou em Cristo o suave aroma dos seus atos e está aplacado para com eles, por respostas de graça, perdoando o pecado, removendo os juízos, desviando ou prevenindo pragas e concedendo bênçãos apropriadas às condições e orações do seu povo, por Jesus Cristo.
Além dos jejuns solenes e gerais ordenados pela autoridade, julgamos que, em outros tempos, as congregações podem guardar dias de jejum, conforme a providência divina lhes oferecer ocasiões especiais; e também que as famílias podem fazer o mesmo, contanto que não seja nos dias em que a congregação a que pertencem deve reunir-se para jejum ou para outros deveres públicos de culto.
Da Observância dos Dias de Ação de Graças Pública
Quando houver de ser guardado algum dia assim, dê-se aviso dele e da sua ocasião com alguma antecedência conveniente, para que o povo se prepare melhor para ele.
Chegado o dia e estando reunida a congregação (depois das preparações particulares), o ministro deve começar com uma palavra de exortação para despertar o povo para o dever para o qual se reuniu, e com uma breve oração pela assistência e bênção de Deus (como nas outras reuniões para o culto público), de acordo com a ocasião particular da reunião.
Faça então uma narração substanciosa do livramento obtido, ou da misericórdia recebida, ou do que quer que tenha ocasionado aquela reunião da congregação, para que todos o entendam melhor, ou sejam lembrados dele e mais tocados por ele.
E, porque o canto de salmos é, entre todas as ordenanças, a mais própria para expressar alegria e ação de graças, cante-se para esse fim algum salmo ou salmos apropriados, antes ou depois da leitura de alguma porção da Palavra adequada à ocasião presente.
Então o ministro que há de pregar prossiga com mais exortação e oração antes do seu sermão, com especial referência à obra presente; depois do que pregue sobre algum texto da Escritura pertinente à ocasião.
Terminado o sermão, não somente ore, como está indicado para os outros tempos depois da pregação, lembrando as necessidades da Igreja, do Rei e do Estado (se foram omitidas antes do sermão), mas estenda-se em devida e solene ação de graças pelas misericórdias e livramentos passados, e mais especialmente por aquele que no presente os reúne para dar graças; com humilde petição pela continuação e renovação das costumeiras misericórdias de Deus, conforme for necessário, e por graça santificadora para fazer delas o devido uso. E assim, tendo-se cantado outro salmo apropriado à misericórdia, despeça a congregação com uma bênção, para que tenham algum tempo conveniente para a sua refeição e descanso.
Mas o ministro (antes de despedi-los) deve admoestá-los solenemente a que se guardem de todo excesso e desordem que tendam à glutonaria ou à embriaguez, e muito mais destes mesmos pecados, ao comerem e se refazerem; e cuidem de que a sua alegria e regozijo não sejam carnais, mas espirituais, de modo que façam glorioso o louvor de Deus e os tornem humildes e sóbrios; e que tanto o seu alimento como o seu regozijo os tornem mais alegres e dispostos para celebrar ainda os seus louvores no meio da congregação, quando voltarem a ela, no restante daquele dia.
Quando a congregação estiver novamente reunida, deve-se renovar e continuar, tanto quanto o tempo permitir, o mesmo procedimento em oração, leitura, pregação, canto de salmos e oferecimento de mais louvor e ação de graças, que antes foi indicado para a manhã.
Numa ou em ambas as reuniões públicas desse dia deve fazer-se uma coleta para os pobres (e do mesmo modo no dia de humilhação pública), para que os seus lombos nos abençoem e se regozijem mais conosco. E o povo deve ser exortado, no fim da última reunião, a empregar o restante daquele dia em deveres santos e em testemunhos de amor e caridade cristã uns para com os outros, e de regozijo cada vez maior no Senhor, como convém aos que fazem da alegria do Senhor a sua força.
Do Canto de Salmos
É dever dos cristãos louvar a Deus publicamente, cantando salmos juntos na congregação, e também em particular, na família.
No canto de salmos, a voz deve ser regulada de modo afinado e grave; mas o principal cuidado deve ser cantar com entendimento e com graça no coração, salmodiando ao Senhor.
Para que toda a congregação possa unir-se nisto, todo aquele que sabe ler deve ter um livro de salmos; e todos os outros, não impedidos pela idade ou de outro modo, devem ser exortados a aprender a ler. Mas, por enquanto, onde muitos na congregação não sabem ler, convém que o ministro, ou alguma outra pessoa idônea designada por ele e pelos outros oficiais governantes, leia o salmo, linha por linha, antes de cantá-lo.
Apêndice sobre os Dias e os Lugares do Culto Público
Não há na Escritura nenhum dia que se ordene guardar santo sob o evangelho, senão o Dia do Senhor, que é o Sábado cristão.
Os dias festivos, vulgarmente chamados dias santos, não tendo autorização na Palavra de Deus, não devem ser continuados.
Não obstante, é lícito e necessário, em ocasiões especiais que surjam, separar um dia ou dias para jejum ou ação de graças públicos, conforme as diversas, notáveis e extraordinárias dispensações da providência de Deus derem causa e oportunidade ao seu povo.
Assim como nenhum lugar é capaz de santidade alguma sob pretexto de qualquer dedicação ou consagração, assim também nenhum está sujeito a tal poluição, por qualquer superstição usada anteriormente e agora abandonada, que torne ilícito ou inconveniente aos cristãos reunirem-se nele para o culto público de Deus. Portanto, julgamos necessário que os lugares de reunião pública para o culto entre nós continuem a ser empregados para esse uso.