1.Da Santa Escritura
Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestem de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que deixam os homens inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade que é necessário para a salvação; por isso aprouve ao Senhor, em diversos tempos e de diferentes maneiras, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, e para mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e a malícia de Satanás e do mundo, foi servido fazê-la escrever toda; o que torna a Santa Escritura indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo.
Sob o nome de Santa Escritura, ou Palavra de Deus escrita, contêm-se agora todos os livros do Antigo e do Novo Testamento, que são estes: do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, 2 Reis, 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias; do Novo Testamento: os Evangelhos segundo Mateus, Marcos, Lucas e João; os Atos dos Apóstolos; as Epístolas de Paulo aos Romanos, 1 aos Coríntios, 2 aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, 1 aos Tessalonicenses, 2 aos Tessalonicenses, 1 a Timóteo, 2 a Timóteo, a Tito, a Filemom; a Epístola aos Hebreus; a Epístola de Tiago; a Primeira e a Segunda Epístolas de Pedro; a Primeira, a Segunda e a Terceira Epístolas de João; a Epístola de Judas; o Apocalipse. Todos estes foram dados por inspiração de Deus para serem a regra de fé e de vida.
Os livros comumente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; portanto não têm autoridade alguma na Igreja de Deus, nem devem ser aprovados ou usados de outro modo senão como quaisquer outros escritos humanos.
A autoridade da Santa Escritura, pela qual ela deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de homem algum ou de igreja alguma, mas inteiramente de Deus (que é a própria verdade), o seu Autor; por isso deve ser recebida, porque é a Palavra de Deus.
Podemos ser movidos e induzidos pelo testemunho da Igreja a ter elevado e reverente apreço pela Santa Escritura; e a natureza celestial da matéria, a eficácia da doutrina, a majestade do estilo, a harmonia de todas as partes, o escopo do todo (que é dar toda a glória a Deus), a plena revelação que faz do único caminho de salvação do homem, as muitas outras excelências incomparáveis e a sua inteira perfeição, são argumentos pelos quais ela abundantemente se evidencia ser a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interior do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra testifica em nossos corações.
Todo o conselho de Deus acerca de todas as coisas necessárias para a sua própria glória, para a salvação do homem, para a fé e para a vida, ou está expressamente declarado na Escritura, ou pode ser dela deduzido por boa e necessária consequência; à qual nada, em tempo algum, se deve acrescentar, seja por novas revelações do Espírito, seja por tradições dos homens. Reconhecemos, todavia, ser necessária a iluminação interior do Espírito de Deus para a compreensão salvadora das coisas reveladas na Palavra; e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comuns às ações e sociedades humanas, que devem ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da Palavra, que sempre devem ser observadas.
Na Escritura, nem todas as coisas são igualmente claras em si mesmas, nem igualmente evidentes a todos; contudo, as coisas que é necessário saber, crer e observar para a salvação são tão claramente propostas e expostas num ou noutro lugar da Escritura, que não somente os doutos, mas também os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma compreensão suficiente delas.
O Antigo Testamento em hebraico (que era a língua nativa do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (que, no tempo em que foi escrito, era a língua mais geralmente conhecida entre as nações), sendo imediatamente inspirados por Deus e, pelo seu singular cuidado e providência, conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos; de modo que, em todas as controvérsias de religião, a Igreja deve apelar para eles em última instância. Mas, porque estas línguas originais não são conhecidas de todo o povo de Deus, que tem direito às Escrituras e interesse nelas, e a quem se ordena, no temor de Deus, que as leia e examine, por isso devem ser traduzidas para a língua vulgar de cada nação aonde chegarem, a fim de que, habitando abundantemente em todos a Palavra de Deus, eles o adorem de modo aceitável e, pela paciência e consolação das Escrituras, tenham esperança.
A regra infalível de interpretação da Escritura é a própria Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer passagem da Escritura (o qual não é múltiplo, mas único), esse sentido deve ser buscado e conhecido por outros lugares que falem mais claramente.
O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias de religião devem ser determinadas, e pelo qual devem ser examinados todos os decretos de concílios, opiniões de escritores antigos, doutrinas de homens e espíritos particulares, e em cuja sentença devemos descansar, não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura.
2.De Deus e da Santíssima Trindade
Há um só Deus vivo e verdadeiro, que é infinito em seu ser e perfeição, espírito puríssimo, invisível, sem corpo, partes ou paixões; imutável, imenso, eterno, incompreensível, todo-poderoso, sapientíssimo, santíssimo, libérrimo, absolutíssimo; que opera todas as coisas segundo o conselho da sua própria vontade, imutável e justíssima, para a sua própria glória; amorosíssimo, gracioso, misericordioso, longânimo, grande em bondade e verdade, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado; galardoador dos que o buscam diligentemente; e, ao mesmo tempo, justíssimo e terrível em seus juízos, que odeia todo pecado e que de modo algum terá por inocente o culpado.
Deus tem em si mesmo e de si mesmo toda a vida, glória, bondade e bem-aventurança; é o único todo-suficiente em si e para si mesmo, não tendo necessidade de nenhuma das criaturas que fez, nem derivando delas glória alguma, mas somente manifestando a sua própria glória nelas, por elas, para elas e sobre elas. Ele é a única fonte de todo ser, de quem, por meio de quem e para quem são todas as coisas; e tem sobre elas o mais soberano domínio, para fazer por meio delas, para elas ou sobre elas tudo quanto lhe aprouver. Diante dele todas as coisas estão patentes e manifestas; o seu conhecimento é infinito, infalível e independente da criatura, de modo que nada lhe é contingente ou incerto. Ele é santíssimo em todos os seus conselhos, em todas as suas obras e em todos os seus mandamentos. A ele é devido, da parte dos anjos, dos homens e de toda outra criatura, todo culto, serviço ou obediência que lhe aprouver exigir deles.
Na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. O Pai não é de ninguém, nem gerado nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo eternamente procede do Pai e do Filho.
3.Do Decreto Eterno de Deus
Desde toda a eternidade, Deus, pelo sapientíssimo e santíssimo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece; porém de modo que, com isso, nem Deus é o autor do pecado, nem se faz violência à vontade das criaturas, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes é estabelecida.
Ainda que Deus saiba tudo quanto pode ou poderia acontecer em todas as condições supostas, contudo nada decretou porque o previu como futuro, ou como aquilo que aconteceria em tais condições.
Pelo decreto de Deus, para manifestação da sua glória, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna, e outros preordenados para a morte eterna.
Estes anjos e homens, assim predestinados e preordenados, são particular e imutavelmente designados; e o seu número é tão certo e definido, que não pode ser nem aumentado nem diminuído.
Aqueles dentre o gênero humano que são predestinados para a vida, Deus, antes de lançados os fundamentos do mundo, segundo o seu eterno e imutável propósito e o secreto conselho e beneplácito da sua vontade, os escolheu em Cristo para a glória eterna, por sua mera e livre graça e amor, sem previsão alguma de fé ou de boas obras, ou de perseverança em qualquer delas, ou de qualquer outra coisa na criatura, como condições ou causas que a isso o movessem; e tudo para louvor da sua gloriosa graça.
Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo eterno e libérrimo propósito da sua vontade, preordenou todos os meios para isso. Portanto, os que são eleitos, tendo caído em Adão, são remidos por Cristo; são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo seu Espírito, que opera no tempo devido; são justificados, adotados, santificados e guardados pelo seu poder, mediante a fé, para a salvação. Nem são outros, senão somente os eleitos, remidos por Cristo, eficazmente chamados, justificados, adotados, santificados e salvos.
Quanto ao resto do gênero humano, aprouve a Deus, segundo o inescrutável conselho da sua própria vontade, pelo qual ele concede ou retém misericórdia como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas, preteri-los e ordená-los para a desonra e para a ira por causa do seu pecado, para louvor da sua gloriosa justiça.
A doutrina deste alto mistério da predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado, a fim de que os homens, atendendo à vontade de Deus revelada na sua Palavra e prestando obediência a ela, possam, pela certeza da sua vocação eficaz, ter a segurança da sua eleição eterna. Assim esta doutrina fornecerá motivo de louvor, reverência e admiração a Deus, e de humildade, diligência e abundante consolação a todos os que sinceramente obedecem ao evangelho.
4.Da Criação
Aprouve a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, para manifestação da glória do seu eterno poder, sabedoria e bondade, criar ou fazer do nada, no princípio, o mundo e todas as coisas que nele há, quer visíveis quer invisíveis, no espaço de seis dias, e tudo muito bom.
Depois de haver feito todas as demais criaturas, Deus criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais, dotados de conhecimento, justiça e verdadeira santidade, segundo a sua própria imagem, tendo a lei de Deus escrita em seus corações e poder para cumpri-la; e contudo sob a possibilidade de transgredi-la, deixados à liberdade da sua própria vontade, que era sujeita a mudança. Além desta lei escrita em seus corações, receberam o mandamento de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal; e, enquanto o guardaram, foram felizes em sua comunhão com Deus e tiveram domínio sobre as criaturas.
5.Da Providência
Deus, o grande Criador de todas as coisas, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, ações e coisas, desde a maior até a menor, por sua sapientíssima e santíssima providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, para louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia.
Ainda que, em relação à presciência e ao decreto de Deus, que é a causa primeira, todas as coisas aconteçam imutável e infalivelmente, contudo, pela mesma providência, ele as ordena de modo que sucedam segundo a natureza das causas secundárias, necessária, livre ou contingentemente.
Deus, em sua providência ordinária, faz uso de meios; contudo é livre para operar sem eles, acima deles e contra eles, segundo o seu beneplácito.
O poder onipotente, a sabedoria inescrutável e a bondade infinita de Deus de tal maneira se manifestam em sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por mera permissão, mas por uma permissão a que se acha unida a mais sábia e poderosa limitação, e também uma ordenação e governo deles, numa múltipla dispensação, para os seus próprios fins santos; de modo, porém, que a pecaminosidade deles procede somente da criatura e não de Deus, o qual, sendo santíssimo e justíssimo, não é nem pode ser o autor ou aprovador do pecado.
O Deus sapientíssimo, justíssimo e graciosíssimo muitas vezes deixa, por algum tempo, os seus próprios filhos entregues a múltiplas tentações e à corrupção do seu próprio coração, para castigá-los por seus pecados passados, ou para lhes revelar a força oculta da corrupção e o engano de seus corações, a fim de que sejam humilhados; e para levá-los a uma dependência mais íntima e constante dele para o seu amparo, e torná-los mais vigilantes contra todas as futuras ocasiões de pecado, e para vários outros fins justos e santos.
Quanto àqueles homens ímpios e perversos que Deus, como justo juiz, cega e endurece por causa de pecados anteriores, ele não somente lhes recusa a sua graça, pela qual poderiam ter sido iluminados em seu entendimento e tocados em seu coração, mas às vezes também lhes retira os dons que tinham, e os expõe a objetos tais que a sua corrupção converte em ocasião de pecado; e, além disso, os entrega às suas próprias concupiscências, às tentações do mundo e ao poder de Satanás; pelo que sucede que eles se endurecem a si mesmos, até sob aqueles meios que Deus emprega para o abrandamento de outros.
Assim como a providência de Deus, em geral, alcança todas as criaturas, assim também, de um modo muito especial, ela cuida da sua Igreja e dispõe todas as coisas para o bem dela.
6.Da Queda do Homem, do Pecado e do seu Castigo
Nossos primeiros pais, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, pecaram, comendo do fruto proibido. Aprouve a Deus, segundo o seu sábio e santo conselho, permitir este pecado deles, tendo-se proposto ordená-lo para a sua própria glória.
Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos no pecado e inteiramente corrompidos em todas as faculdades e partes da alma e do corpo.
Sendo eles a raiz de todo o gênero humano, a culpa deste pecado foi imputada, e a mesma morte no pecado e a mesma natureza corrompida foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles descende por geração ordinária.
Desta corrupção original, pela qual estamos completamente indispostos, incapacitados e opostos a todo bem, e inteiramente inclinados a todo mal, procedem todas as transgressões atuais.
Esta corrupção da natureza permanece, durante esta vida, naqueles que são regenerados; e, embora por meio de Cristo seja perdoada e mortificada, todavia tanto ela mesma como todos os seus impulsos são verdadeira e propriamente pecado.
Todo pecado, tanto original como atual, sendo transgressão da justa lei de Deus e contrário a ela, acarreta, por sua própria natureza, culpa sobre o pecador, pela qual ele fica sujeito à ira de Deus e à maldição da lei, e assim exposto à morte, com todas as misérias espirituais, temporais e eternas.
7.Do Pacto de Deus com o Homem
A distância entre Deus e a criatura é tão grande, que, embora as criaturas racionais devam obediência a ele como seu Criador, nunca poderiam ter fruição alguma dele como sua bem-aventurança e galardão, senão por alguma condescendência voluntária da parte de Deus, a qual lhe aprouve expressar por meio de pacto.
O primeiro pacto feito com o homem foi um pacto de obras, no qual a vida foi prometida a Adão, e nele à sua posteridade, sob a condição de perfeita e pessoal obediência.
Tendo-se o homem, pela sua queda, tornado incapaz de vida por esse pacto, aprouve ao Senhor fazer um segundo, comumente chamado pacto da graça, no qual ele oferece livremente aos pecadores a vida e a salvação por Jesus Cristo, exigindo deles a fé nele, para que sejam salvos, e prometendo dar a todos os que estão ordenados para a vida o seu Santo Espírito, para fazê-los dispostos e capazes de crer.
Este pacto da graça é frequentemente apresentado na Escritura pelo nome de testamento, em referência à morte de Jesus Cristo, o testador, e à herança eterna, com todas as coisas a ela pertencentes, nele legada.
Este pacto foi administrado de modo diferente no tempo da lei e no tempo do evangelho. Sob a lei, foi administrado por promessas, profecias, sacrifícios, circuncisão, o cordeiro pascal e outros tipos e ordenanças entregues ao povo judeu, todos prefigurando o Cristo que havia de vir; e estes foram, para aquele tempo, suficientes e eficazes, pela operação do Espírito, para instruir e edificar os eleitos na fé no Messias prometido, por quem tinham plena remissão de pecados e salvação eterna; e é chamado Antigo Testamento.
Sob o evangelho, quando Cristo, a substância, foi manifestado, as ordenanças pelas quais este pacto é dispensado são a pregação da Palavra e a administração dos sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor; as quais, embora em menor número e administradas com mais simplicidade e menos glória exterior, nelas, contudo, o pacto é apresentado com mais plenitude, evidência e eficácia espiritual a todas as nações, tanto judeus como gentios; e é chamado Novo Testamento. Não há, pois, dois pactos da graça, diferentes em substância, mas um e o mesmo sob várias dispensações.
8.De Cristo, o Mediador
Aprouve a Deus, em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho unigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador da sua Igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do mundo; a quem, desde toda a eternidade, deu um povo para ser a sua semente e para ser por ele, no tempo, remido, chamado, justificado, santificado e glorificado.
O Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade, sendo verdadeiro e eterno Deus, da mesma substância do Pai e igual a ele, quando chegou a plenitude do tempo, tomou sobre si a natureza humana, com todas as propriedades essenciais e enfermidades comuns dela, contudo sem pecado, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo, no ventre da Virgem Maria, da substância dela. Assim, duas naturezas inteiras, perfeitas e distintas, a Divindade e a humanidade, foram inseparavelmente unidas em uma só pessoa, sem conversão, composição ou confusão. Essa pessoa é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, porém um só Cristo, o único Mediador entre Deus e o homem.
O Senhor Jesus, em sua natureza humana assim unida à divina, foi santificado e ungido com o Espírito Santo sem medida, tendo em si todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento; e nele aprouve ao Pai que habitasse toda a plenitude, a fim de que, sendo santo, inocente, imaculado e cheio de graça e de verdade, estivesse plenamente apto para desempenhar o ofício de Mediador e Fiador. Este ofício ele não tomou para si mesmo, mas para ele foi chamado por seu Pai, que pôs em suas mãos todo o poder e todo o juízo e lhe deu mandamento para exercê-lo.
Este ofício o Senhor Jesus empreendeu de muito boa vontade; e, para desempenhá-lo, foi feito sujeito à lei e a cumpriu perfeitamente; suportou tormentos gravíssimos imediatamente em sua alma e sofrimentos dolorosíssimos em seu corpo; foi crucificado e morreu; foi sepultado e permaneceu sob o poder da morte, mas não viu corrupção. Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos com o mesmo corpo com que padeceu; com o qual também subiu ao céu, onde está sentado à direita de seu Pai, intercedendo; e voltará para julgar os homens e os anjos no fim do mundo.
O Senhor Jesus, por sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, que pelo Espírito eterno ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente a justiça de seu Pai e adquiriu não somente a reconciliação, mas também uma herança eterna no reino dos céus, para todos aqueles que o Pai lhe deu.
Ainda que a obra da redenção não tenha sido efetivamente realizada por Cristo senão depois da sua encarnação, contudo a virtude, a eficácia e os benefícios dela foram comunicados aos eleitos em todas as épocas, sucessivamente, desde o princípio do mundo, nas e pelas promessas, tipos e sacrifícios em que ele foi revelado e significado como a semente da mulher que havia de esmagar a cabeça da serpente, e como o Cordeiro morto desde o princípio do mundo, sendo ele o mesmo ontem, hoje e para sempre.
Cristo, na obra de mediação, age segundo ambas as naturezas, fazendo cada natureza o que lhe é próprio; contudo, em razão da unidade da pessoa, aquilo que é próprio de uma natureza é às vezes, na Escritura, atribuído à pessoa designada pela outra natureza.
A todos aqueles para quem Cristo adquiriu a redenção, ele certa e eficazmente a aplica e comunica, intercedendo por eles e revelando-lhes, na Palavra e pela Palavra, os mistérios da salvação; persuadindo-os eficazmente pelo seu Espírito a crer e obedecer, e governando os seus corações pela sua Palavra e pelo seu Espírito; vencendo todos os seus inimigos por seu onipotente poder e sabedoria, da maneira e pelos meios mais conformes à sua maravilhosa e inescrutável dispensação.
9.Do Livre-Arbítrio
Deus dotou a vontade do homem daquela liberdade natural que não é forçada, nem determinada para o bem ou para o mal por qualquer necessidade absoluta da natureza.
O homem, em seu estado de inocência, tinha liberdade e poder para querer e fazer o que é bom e agradável a Deus; mas mutavelmente, de modo que podia decair dele.
O homem, por sua queda num estado de pecado, perdeu totalmente toda a capacidade da vontade para qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de modo que o homem natural, sendo inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, não é capaz, por suas próprias forças, de converter-se, nem de preparar-se para isso.
Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua escravidão natural ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e fazer livremente o que é espiritualmente bom; contudo de tal modo que, por causa da corrupção que nele resta, não quer perfeitamente nem unicamente o que é bom, mas quer também o que é mau.
A vontade do homem só no estado de glória é feita perfeita e imutavelmente livre para o bem somente.
10.Da Vocação Eficaz
Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e somente esses, apraz-lhe, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, para a graça e a salvação por Jesus Cristo; iluminando os seus entendimentos espiritual e salvadoramente, para compreenderem as coisas de Deus; tirando-lhes o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne; renovando as suas vontades e, por seu poder onipotente, determinando-os para aquilo que é bom, e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo; mas de modo que eles vêm com toda a liberdade, sendo feitos voluntários pela sua graça.
Esta vocação eficaz provém unicamente da livre e especial graça de Deus, e não de qualquer coisa prevista no homem, o qual nela é inteiramente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica por este meio habilitado a responder a esta vocação e a abraçar a graça nela oferecida e comunicada.
As crianças eleitas que morrem na infância são regeneradas e salvas por Cristo, por meio do Espírito, que opera quando, onde e como lhe apraz. Assim também o são todas as outras pessoas eleitas que são incapazes de ser exteriormente chamadas pelo ministério da Palavra.
Os outros, não eleitos, ainda que sejam chamados pelo ministério da Palavra e tenham algumas operações comuns do Espírito, contudo nunca vêm verdadeiramente a Cristo e, portanto, não podem ser salvos; muito menos poderão ser salvos, por qualquer outro meio, os homens que não professam a religião cristã, por mais diligentes que sejam em conformar a sua vida segundo a luz da natureza e a lei da religião que professam; e afirmar e sustentar que o podem ser é muito pernicioso e deve ser detestado.
11.Da Justificação
Aqueles a quem Deus chama eficazmente, também os justifica gratuitamente, não infundindo neles a justiça, mas perdoando os seus pecados e considerando e aceitando as suas pessoas como justas; não por qualquer coisa neles operada ou por eles feita, mas somente por causa de Cristo; nem imputando-lhes como justiça a própria fé, o ato de crer, ou qualquer outra obediência evangélica, mas imputando-lhes a obediência e a satisfação de Cristo, recebendo-o eles e descansando nele e na sua justiça pela fé; a qual fé eles não têm de si mesmos: é dom de Deus.
A fé, assim recebendo a Cristo e descansando nele e na sua justiça, é o único instrumento da justificação; contudo ela não está sozinha na pessoa justificada, mas é sempre acompanhada de todas as outras graças salvadoras; e não é uma fé morta, mas opera pelo amor.
Cristo, por sua obediência e morte, saldou plenamente a dívida de todos os que são assim justificados, e fez à justiça de seu Pai, em favor deles, uma satisfação própria, real e plena. Contudo, visto que ele foi dado pelo Pai por eles, e que a sua obediência e satisfação foram aceitas em lugar deles, e ambas as coisas gratuitamente, não por qualquer coisa que neles houvesse, a justificação deles é unicamente de livre graça, a fim de que tanto a exata justiça como a rica graça de Deus fossem glorificadas na justificação dos pecadores.
Deus, desde toda a eternidade, decretou justificar todos os eleitos; e Cristo, na plenitude do tempo, morreu por seus pecados e ressuscitou para a sua justificação; todavia eles não são justificados enquanto o Espírito Santo, no tempo devido, não lhes aplica efetivamente a Cristo.
Deus continua a perdoar os pecados daqueles que são justificados; e, embora eles nunca possam decair do estado de justificação, podem, contudo, por seus pecados, incorrer no paternal desagrado de Deus e não ter restaurada sobre si a luz do seu rosto, enquanto não se humilharem, não confessarem os seus pecados, não pedirem perdão e não renovarem a sua fé e o seu arrependimento.
A justificação dos crentes sob o Antigo Testamento foi, em todos estes respeitos, uma e a mesma que a justificação dos crentes sob o Novo Testamento.
12.Da Adoção
A todos os que são justificados, Deus se digna, em seu único Filho Jesus Cristo e por amor dele, fazer participantes da graça da adoção, pela qual são recebidos no número dos filhos de Deus e gozam das suas liberdades e privilégios; têm sobre si o nome dele; recebem o Espírito de adoção; têm acesso ao trono da graça com ousadia; são habilitados a clamar: Aba, Pai; são tratados com compaixão, protegidos, providos e corrigidos por ele como por um pai; contudo nunca são rejeitados, mas selados para o dia da redenção, e herdam as promessas como herdeiros da salvação eterna.
13.Da Santificação
Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo um novo coração e um novo espírito criados neles, são, além disso, santificados real e pessoalmente, pela virtude da morte e ressurreição de Cristo, por sua Palavra e por seu Espírito que neles habita; o domínio de todo o corpo do pecado é destruído, e as várias concupiscências dele são cada vez mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são cada vez mais vivificados e fortalecidos em todas as graças salvadoras, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.
Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; permanecem ainda em todas as partes alguns restos de corrupção, de onde nasce uma guerra contínua e irreconciliável, a carne lutando contra o espírito, e o espírito contra a carne.
Nesta guerra, embora a corrupção que resta possa por algum tempo prevalecer muito, contudo, pelo contínuo socorro de força da parte do Espírito santificador de Cristo, a parte regenerada vence; e assim os santos crescem na graça, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.
14.Da Fé Salvadora
A graça da fé, pela qual os eleitos são habilitados a crer para a salvação das suas almas, é obra do Espírito de Cristo em seus corações, e é ordinariamente operada pelo ministério da Palavra; pelo qual também, e pela administração dos sacramentos e pela oração, ela é aumentada e fortalecida.
Por esta fé o cristão crê ser verdadeiro tudo quanto é revelado na Palavra, por causa da autoridade do próprio Deus que nela fala; e age de modo diferente conforme aquilo que cada passagem em particular contém: prestando obediência aos mandamentos, tremendo diante das ameaças e abraçando as promessas de Deus para esta vida e para a vindoura. Mas os principais atos da fé salvadora são aceitar, receber e descansar somente em Cristo para a justificação, a santificação e a vida eterna, em virtude do pacto da graça.
Esta fé é diferente em graus, fraca ou forte; pode ser muitas vezes e de muitos modos assaltada e enfraquecida, mas alcança a vitória, crescendo em muitos até chegar à plena certeza por meio de Cristo, que é o autor e consumador da nossa fé.
15.Do Arrependimento para a Vida
O arrependimento para a vida é uma graça evangélica, cuja doutrina deve ser pregada por todo ministro do evangelho, assim como a doutrina da fé em Cristo.
Por ele, o pecador, vendo e sentindo não somente o perigo, mas também a imundícia e a odiosidade dos seus pecados, como contrários à santa natureza e à justa lei de Deus, e apreendendo a misericórdia de Deus em Cristo para com os que se arrependem, de tal modo se entristece pelos seus pecados e os odeia, que se volta de todos eles para Deus, propondo-se e esforçando-se por andar com ele em todos os caminhos dos seus mandamentos.
Ainda que não se deva descansar no arrependimento como se fosse alguma satisfação pelo pecado ou alguma causa do seu perdão, que é ato da livre graça de Deus em Cristo, contudo ele é de tal necessidade para todos os pecadores, que ninguém pode esperar perdão sem ele.
Assim como não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação, assim também não há pecado tão grande que possa trazer condenação sobre os que verdadeiramente se arrependem.
Os homens não devem contentar-se com um arrependimento geral, mas é dever de cada um esforçar-se por arrepender-se particularmente de cada um dos seus pecados particulares.
Assim como cada homem está obrigado a fazer a Deus confissão particular dos seus pecados, orando pelo perdão deles, e, fazendo isso e abandonando-os, alcançará misericórdia, assim também aquele que escandaliza seu irmão ou a Igreja de Cristo deve estar disposto a declarar o seu arrependimento aos que foram ofendidos, por meio de confissão particular ou pública e de tristeza pelo seu pecado; e estes devem então reconciliar-se com ele e recebê-lo em amor.
16.Das Boas Obras
Boas obras são somente aquelas que Deus ordenou em sua santa Palavra, e não as que, sem autoridade desta, são inventadas pelos homens por zelo cego ou sob qualquer pretexto de boa intenção.
Estas boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são os frutos e as evidências de uma fé verdadeira e viva; e por elas os crentes manifestam a sua gratidão, fortalecem a sua certeza, edificam os seus irmãos, adornam a profissão do evangelho, tapam a boca dos adversários e glorificam a Deus, de quem são feitura, criados em Cristo Jesus para isso, a fim de que, tendo o seu fruto para a santidade, tenham por fim a vida eterna.
A capacidade que eles têm de fazer boas obras não vem de modo algum deles mesmos, mas inteiramente do Espírito de Cristo. E, para que sejam habilitados a fazê-las, além das graças que já receberam, é necessária uma influência atual do mesmo Espírito Santo, para operar neles o querer e o realizar, segundo o seu beneplácito; contudo, não devem por isso tornar-se negligentes, como se não estivessem obrigados a cumprir dever algum senão mediante um impulso especial do Espírito; mas devem ser diligentes em despertar a graça de Deus que está neles.
Os que, em sua obediência, alcançam a maior altura possível nesta vida, estão tão longe de poder fazer obras de supererrogação e mais do que Deus requer, que ficam aquém de muito daquilo que por dever estão obrigados a fazer.
Não podemos, por nossas melhores obras, merecer da mão de Deus o perdão do pecado ou a vida eterna, por causa da grande desproporção que há entre elas e a glória por vir, e da distância infinita que há entre nós e Deus, a quem por elas não podemos ser úteis, nem satisfazer pela dívida dos nossos pecados anteriores; mas, quando tivermos feito tudo o que podemos, não teremos feito senão o nosso dever, e somos servos inúteis; e porque, enquanto são boas, procedem do seu Espírito; e, enquanto são feitas por nós, são contaminadas e misturadas com tanta fraqueza e imperfeição, que não podem suportar a severidade do juízo de Deus.
Não obstante, sendo aceitas por meio de Cristo as pessoas dos crentes, as suas boas obras também são aceitas nele; não como se fossem nesta vida inteiramente irrepreensíveis e inculpáveis aos olhos de Deus, mas porque ele, olhando para elas em seu Filho, se agrada de aceitar e galardoar aquilo que é sincero, embora acompanhado de muitas fraquezas e imperfeições.
As obras feitas por homens não regenerados, ainda que, quanto à sua matéria, possam ser coisas que Deus ordena e de bom uso tanto para eles mesmos como para outros, contudo, porque não procedem de um coração purificado pela fé, nem são feitas de modo correto, segundo a Palavra, nem para um fim correto, a glória de Deus, são por isso pecaminosas e não podem agradar a Deus, nem tornar um homem apto para receber a graça de Deus. E, todavia, a negligência delas é ainda mais pecaminosa e desagradável a Deus.
17.Da Perseverança dos Santos
Aqueles a quem Deus aceitou em seu Amado, eficazmente chamados e santificados pelo seu Espírito, não podem decair do estado de graça, nem total nem finalmente; mas certamente nele perseverarão até o fim e serão eternamente salvos.
Esta perseverança dos santos não depende do seu próprio livre-arbítrio, mas da imutabilidade do decreto da eleição, que procede do amor livre e imutável de Deus Pai; da eficácia do mérito e da intercessão de Jesus Cristo; da permanência do Espírito e da semente de Deus neles; e da natureza do pacto da graça; de todas as quais coisas procede também a sua certeza e infalibilidade.
Contudo, eles podem, pelas tentações de Satanás e do mundo, pela força da corrupção que neles resta e pela negligência dos meios da sua preservação, cair em pecados graves e continuar neles por algum tempo; pelo que incorrem no desagrado de Deus e entristecem o seu Santo Espírito; chegam a ser privados de alguma medida das suas graças e consolações; têm os seus corações endurecidos e as suas consciências feridas; ferem e escandalizam outros e trazem sobre si juízos temporais.
18.Da Certeza da Graça e da Salvação
Ainda que os hipócritas e outros homens não regenerados possam vãmente enganar-se com falsas esperanças e presunções carnais de estarem no favor de Deus e em estado de salvação, esperança essa que perecerá, contudo os que verdadeiramente creem no Senhor Jesus e o amam com sinceridade, esforçando-se por andar diante dele em toda a boa consciência, podem, nesta vida, ter a certeza de que estão em estado de graça e podem regozijar-se na esperança da glória de Deus, esperança essa que nunca os envergonhará.
Esta certeza não é uma persuasão meramente conjectural e provável, fundada numa esperança falível, mas uma infalível certeza de fé, fundada na verdade divina das promessas de salvação, na evidência interior daquelas graças às quais estas promessas são feitas, e no testemunho do Espírito de adoção, que testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus; o qual Espírito é o penhor da nossa herança, pelo qual somos selados para o dia da redenção.
Esta infalível certeza não pertence de tal modo à essência da fé, que um verdadeiro crente não possa esperar muito tempo e lutar com muitas dificuldades antes de ser participante dela; contudo, sendo habilitado pelo Espírito a conhecer as coisas que lhe são dadas gratuitamente por Deus, pode alcançá-la sem revelação extraordinária, no reto uso dos meios ordinários. Por isso é dever de cada um empregar toda a diligência para tornar certa a sua vocação e eleição, a fim de que por este meio o seu coração se dilate em paz e alegria no Espírito Santo, em amor e gratidão para com Deus, e em força e alegria nos deveres da obediência, que são os frutos próprios desta certeza; tão longe está ela de inclinar os homens à negligência.
Os verdadeiros crentes podem ter a certeza da sua salvação de diversos modos abalada, diminuída e interrompida: por negligência em conservá-la; por caírem em algum pecado especial que fere a consciência e entristece o Espírito; por alguma tentação repentina ou veemente; por retirar Deus a luz do seu rosto e permitir que até os que o temem andem em trevas e não tenham luz. Contudo, nunca ficam inteiramente destituídos daquela semente de Deus e vida de fé, daquele amor a Cristo e aos irmãos, daquela sinceridade de coração e consciência do dever, pelos quais, mediante a operação do Espírito, esta certeza pode, no tempo devido, ser reavivada, e pelos quais, entretanto, eles são sustentados para não caírem em total desespero.
19.Da Lei de Deus
Deus deu a Adão uma lei, como pacto de obras, pela qual o obrigou, a ele e a toda a sua posteridade, a uma obediência pessoal, inteira, exata e perpétua; prometeu-lhe a vida pelo cumprimento dela e ameaçou-o com a morte pela sua violação; e dotou-o de poder e capacidade para guardá-la.
Esta lei, depois da queda, continuou a ser uma regra perfeita de justiça e, como tal, foi entregue por Deus no monte Sinai em dez mandamentos e escrita em duas tábuas; os quatro primeiros mandamentos contêm os nossos deveres para com Deus, e os outros seis os nossos deveres para com o homem.
Além desta lei, comumente chamada moral, aprouve a Deus dar ao povo de Israel, como Igreja em sua menoridade, leis cerimoniais, contendo diversas ordenanças típicas, em parte de culto, prefigurando Cristo, as suas graças, ações, sofrimentos e benefícios, e em parte apresentando diversas instruções sobre deveres morais. Todas estas leis cerimoniais estão agora ab-rogadas sob o Novo Testamento.
A esse povo, também como corpo político, deu diversas leis judiciais, que expiraram juntamente com o Estado daquele povo, não obrigando agora a nenhum outro além do que a equidade geral delas possa exigir.
A lei moral obriga para sempre a todos, tanto as pessoas justificadas como as outras, à obediência a ela; e isto não somente em consideração à matéria nela contida, mas também em respeito à autoridade de Deus, o Criador, que a deu. Nem Cristo, no evangelho, de modo algum dissolve esta obrigação, antes muito a fortalece.
Ainda que os verdadeiros crentes não estejam debaixo da lei como pacto de obras, para por ela serem justificados ou condenados, contudo ela é de grande utilidade para eles, assim como para outros; pois, como regra de vida, informando-os da vontade de Deus e do seu dever, dirige-os e obriga-os a andar de acordo com ela; revela-lhes também as poluições pecaminosas da sua natureza, coração e vida; de modo que, examinando-se por ela, podem chegar a maior convicção do pecado, humilhação por ele e ódio contra ele, juntamente com uma visão mais clara da necessidade que têm de Cristo e da perfeição da obediência dele. É igualmente útil aos regenerados para refrear as suas corrupções, pois proíbe o pecado; e as suas ameaças servem para mostrar o que até os pecados deles merecem e que aflições podem esperar por causa deles nesta vida, embora estejam livres da maldição com que a lei os ameaça. As suas promessas, do mesmo modo, mostram-lhes a aprovação que Deus dá à obediência e que bênçãos podem esperar pelo cumprimento dela, embora não como coisa que lhes seja devida pela lei como pacto de obras; de maneira que o fato de alguém fazer o bem e abster-se do mal, porque a lei anima a um e desvia do outro, não é evidência de que esteja debaixo da lei e não debaixo da graça.
- At 13:39
- Rm 6:14
- Rm 8:1
- Gl 2:16
- Gl 3:13
- Gl 4:4-5
- Sl 119:4-6
- Rm 7:12
- Rm 7:22
- Rm 7:25
- 1Co 7:19
- Gl 5:14
- Gl 5:16
- Gl 5:18-23
- Rm 3:20
- Rm 7:7
- Rm 7:9
- Rm 7:14
- Rm 7:24
- Tg 1:23-25
- Rm 7:24-25
- Rm 8:3-4
- Gl 3:24
- Sl 119:101
- Sl 119:104
- Sl 119:128
- Tg 2:11
- Ed 9:13-14
- Sl 89:30-34
- Lv 26:1
- Lv 26:10
- Lv 26:14
- 2Co 6:16
- Sl 19:11
- Sl 37:11
- Mt 5:5
- Ef 6:2-3
- Lc 17:10
- Rm 6:12
- Hb 12:28-29
- 1Pe 3:8-12
- Sl 34:12-16
Nem os sobreditos usos da lei são contrários à graça do evangelho, mas com ela suavemente se harmonizam, pois o Espírito de Cristo subjuga a vontade do homem e a habilita a fazer livre e alegremente aquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que se faça.
20.Da Liberdade Cristã e da Liberdade de Consciência
A liberdade que Cristo adquiriu para os crentes sob o evangelho consiste em estarem livres da culpa do pecado, da ira condenatória de Deus e da maldição da lei moral; e em serem libertados deste presente século mau, da escravidão a Satanás e do domínio do pecado, do mal das aflições, do aguilhão da morte, da vitória da sepultura e da condenação eterna; como também em seu livre acesso a Deus e em lhe prestarem obediência, não por medo servil, mas por amor filial e ânimo voluntário. Todas estas coisas eram comuns também aos crentes sob a lei; mas, sob o Novo Testamento, a liberdade dos cristãos é ainda mais ampliada, por estarem livres do jugo da lei cerimonial, a que estava sujeita a Igreja judaica, e por terem maior ousadia de acesso ao trono da graça e mais plenas comunicações do livre Espírito de Deus do que os crentes sob a lei ordinariamente participavam.
Só Deus é Senhor da consciência, e a deixou livre das doutrinas e mandamentos dos homens que sejam em qualquer coisa contrários à sua Palavra ou que, em matéria de fé ou de culto, estejam fora dela. Assim, crer em tais doutrinas ou obedecer a tais mandamentos por motivo de consciência é trair a verdadeira liberdade de consciência; e exigir uma fé implícita e uma obediência absoluta e cega é destruir a liberdade de consciência e também a razão.
Aqueles que, sob pretexto de liberdade cristã, praticam qualquer pecado ou acalentam qualquer concupiscência, destroem com isso o fim da liberdade cristã, que é que, livres das mãos dos nossos inimigos, sirvamos ao Senhor sem temor, em santidade e justiça diante dele, todos os dias da nossa vida.
E, porque o poder que Deus ordenou e a liberdade que Cristo adquiriu não foram destinados por Deus para destruir-se, mas para sustentar-se e preservar-se mutuamente, aqueles que, sob pretexto de liberdade cristã, se opuserem a qualquer poder legítimo, ou ao exercício legítimo dele, seja civil seja eclesiástico, resistem à ordenação de Deus. E, por publicarem tais opiniões ou sustentarem tais práticas que sejam contrárias à luz da natureza ou aos princípios conhecidos do cristianismo, quer quanto à fé, quer quanto ao culto, quer quanto ao procedimento, ou ao poder da piedade; ou tais opiniões ou práticas errôneas que, seja por sua própria natureza, seja pelo modo de publicá-las ou sustentá-las, sejam destrutivas da paz e da ordem exteriores que Cristo estabeleceu na Igreja, podem legitimamente ser chamados a prestar contas e ser processados pelas censuras da Igreja e pelo poder do Magistrado Civil.
- Mt 12:25
- Rm 13:1-8
- Hb 13:17
- 1Pe 2:13-14
- 1Pe 2:16
- Rm 1:32
- 1Co 5:1
- 1Co 5:5
- 1Co 5:11
- 1Co 5:13
- 2Jo 1:10-11
- 2Ts 3:14
- 1Tm 6:3-5
- Tt 1:10-11
- Tt 1:13
- Tt 3:10
- Mt 18:15-17
- 1Tm 1:19-20
- Ap 2:2
- Ap 2:14-15
- Ap 2:20
- Ap 3:9
- Dt 13:6-12
- 2Rs 23:5-6
- 2Rs 23:9
- 2Rs 23:20-21
- 2Cr 15:12-13
- 2Cr 15:16
- 2Cr 34:33
- Ne 13:15
- Ne 13:17
- Ne 13:21-22
- Ne 13:25
- Ne 13:30
- Is 49:23
- Dn 3:29
- Zc 13:2-3
- Rm 13:3-4
- 1Tm 2:2
- Ap 17:12
- Ap 17:16-17
21.Do Culto Religioso e do Dia de Descanso
A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem senhorio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de todas as forças. Mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou as sugestões de Satanás, sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito na Santa Escritura.
O culto religioso deve ser prestado a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e somente a ele; não aos anjos, aos santos ou a qualquer outra criatura; e, desde a queda, não sem um Mediador, nem pela mediação de qualquer outro senão somente de Cristo.
A oração com ação de graças, sendo uma parte especial do culto religioso, é exigida por Deus de todos os homens; e, para que seja aceita, deve ser feita em nome do Filho, com o auxílio do seu Espírito, segundo a sua vontade, com entendimento, reverência, humildade, fervor, fé, amor e perseverança; e, se vocal, numa língua conhecida.
Deve-se orar por coisas lícitas e por toda espécie de homens que vivem agora ou que hão de viver depois; mas não pelos mortos, nem por aqueles de quem se possa saber que cometeram o pecado para a morte.
A leitura das Escrituras com temor piedoso; a sã pregação e o ouvir consciencioso da Palavra, em obediência a Deus, com entendimento, fé e reverência; o cantar salmos com graça no coração; como também a devida administração e a digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo, são todos partes do culto religioso ordinário de Deus; além dos juramentos religiosos, dos votos, dos jejuns solenes e das ações de graças em ocasiões especiais, que devem ser usados, em seus tempos e ocasiões próprios, de maneira santa e religiosa.
Nem a oração nem qualquer outra parte do culto religioso está agora, sob o evangelho, presa a algum lugar em que seja feita ou para o qual seja dirigida, nem por ele se torna mais aceitável; mas Deus deve ser adorado em toda parte, em espírito e em verdade; tanto diariamente nas famílias, em particular, e em secreto, cada um por si mesmo, como mais solenemente nas assembleias públicas, que não devem ser negligenciadas nem abandonadas por descuido ou deliberadamente, quando Deus, por sua Palavra ou providência, a elas nos chama.
Assim como é da lei da natureza que, em geral, uma devida proporção de tempo seja separada para o culto de Deus, assim também, em sua Palavra, por um mandamento positivo, moral e perpétuo, que obriga todos os homens em todos os séculos, ele designou particularmente um dia em sete para ser um Sábado, guardado santo para ele; o qual, desde o princípio do mundo até a ressurreição de Cristo, foi o último dia da semana; e, desde a ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que na Escritura é chamado Dia do Senhor, e deve continuar até o fim do mundo como o Sábado cristão.
Este Sábado é guardado santo ao Senhor quando os homens, depois de devidamente prepararem os seus corações e de antecipadamente ordenarem os seus negócios comuns, não somente observam durante todo o dia um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos acerca de seus empregos e recreações mundanos, mas também se ocupam todo o tempo nos exercícios públicos e particulares do culto de Deus e nos deveres de necessidade e de misericórdia.
22.Dos Juramentos Lícitos e dos Votos
O juramento lícito é uma parte do culto religioso, na qual, em ocasião justa, a pessoa que jura invoca solenemente a Deus como testemunha do que afirma ou promete, e para que a julgue segundo a verdade ou a falsidade do que jura.
Somente pelo nome de Deus devem os homens jurar, e nisso deve ele ser usado com todo santo temor e reverência; portanto, jurar vã ou temerariamente por esse nome glorioso e tremendo, ou jurar por qualquer outra coisa, é pecado e deve ser abominado. Contudo, assim como, em matérias de peso e importância, o juramento é autorizado pela Palavra de Deus tanto sob o Novo Testamento como sob o Antigo, assim também o juramento lícito, sendo imposto por autoridade legítima, deve ser prestado em tais matérias.
Todo aquele que presta juramento deve considerar devidamente a gravidade de um ato tão solene, e nele não afirmar senão aquilo que esteja plenamente persuadido ser a verdade. Nem pode alguém obrigar-se por juramento a coisa alguma senão ao que é bom e justo, e ao que ele crê que assim seja, e ao que é capaz de cumprir e está resolvido a cumprir. Contudo, é pecado recusar um juramento a respeito de qualquer coisa boa e justa, sendo imposto por autoridade legítima.
O juramento deve ser prestado no sentido claro e comum das palavras, sem equívoco nem restrição mental. Não pode obrigar a pecar; mas, em tudo o que não for pecaminoso, uma vez prestado, obriga ao cumprimento, ainda que em prejuízo do próprio homem; nem deve ser violado, ainda que feito a hereges ou infiéis.
O voto é da mesma natureza que o juramento promissório, e deve ser feito com o mesmo cuidado religioso e cumprido com a mesma fidelidade.
Não deve ser feito a criatura alguma, mas somente a Deus; e, para que seja aceito, deve ser feito voluntariamente, com fé e consciência do dever, por gratidão pela misericórdia recebida ou para obtenção daquilo de que temos necessidade; pelo qual nos obrigamos mais estritamente aos deveres necessários, ou a outras coisas, até onde e enquanto possam convenientemente conduzir a eles.
Ninguém pode fazer voto de fazer coisa alguma proibida na Palavra de Deus, ou que impeça algum dever nela ordenado, ou que não esteja em seu próprio poder, e para cujo cumprimento não tenha promessa ou capacidade da parte de Deus. Neste respeito, os votos monásticos papistas de celibato perpétuo, pobreza professa e obediência regular, longe de serem graus de mais alta perfeição, são laços supersticiosos e pecaminosos, nos quais nenhum cristão deve enredar-se.
23.Do Magistrado Civil
Deus, o Supremo Senhor e Rei de todo o mundo, ordenou magistrados civis para estarem, sob ele, à frente do povo, para a sua própria glória e para o bem público; e, para este fim, armou-os com o poder da espada, para defesa e incentivo dos bons e para castigo dos malfeitores.
É lícito aos cristãos aceitar e exercer o ofício de magistrado, quando para ele forem chamados; no desempenho do qual, assim como devem especialmente manter a piedade, a justiça e a paz, segundo as leis salutares de cada Estado, assim também, para esse fim, podem licitamente, agora sob o Novo Testamento, fazer guerra em ocasião justa e necessária.
O magistrado civil não pode tomar para si a administração da Palavra e dos Sacramentos, nem o poder das chaves do reino dos céus; contudo, tem autoridade, e é seu dever, providenciar que a unidade e a paz sejam preservadas na Igreja, que a verdade de Deus seja mantida pura e íntegra, que todas as blasfêmias e heresias sejam suprimidas, que todas as corrupções e abusos no culto e na disciplina sejam prevenidos ou reformados, e que todas as ordenanças de Deus sejam devidamente estabelecidas, administradas e observadas. Para melhor efetuar isso, ele tem poder para convocar sínodos, estar presente neles e providenciar que tudo quanto neles se tratar seja conforme a mente de Deus.
É dever do povo orar pelos magistrados, honrar as suas pessoas, pagar-lhes tributos e outras contribuições devidas, obedecer às suas ordens legítimas e sujeitar-se à sua autoridade, por causa da consciência. A infidelidade ou a diferença de religião não anula a justa e legal autoridade do magistrado, nem exime o povo da devida obediência a ele; da qual as pessoas eclesiásticas não estão isentas; muito menos tem o Papa qualquer poder ou jurisdição sobre os magistrados em seus domínios, ou sobre qualquer pessoa do seu povo; e muito menos ainda para privá-los dos seus domínios ou da vida, se os julgar hereges, ou sob qualquer outro pretexto.
24.Do Matrimônio e do Divórcio
O matrimônio deve ser entre um só homem e uma só mulher; não é lícito a homem algum ter mais de uma esposa, nem a mulher alguma ter mais de um marido ao mesmo tempo.
O matrimônio foi ordenado para o auxílio mútuo do marido e da mulher; para a propagação do gênero humano com descendência legítima, e da Igreja com uma semente santa; e para prevenção da impureza.
É lícito casarem-se todas as espécies de pessoas que sejam capazes de dar o seu consentimento com discernimento. Contudo, é dever dos cristãos casar somente no Senhor. Portanto, os que professam a verdadeira religião reformada não devem casar-se com infiéis, papistas ou outros idólatras; nem os que são piedosos devem pôr-se em jugo desigual, casando-se com os que são notoriamente ímpios em sua vida ou que sustentam heresias condenáveis.
O matrimônio não deve ser contraído dentro dos graus de consanguinidade ou afinidade proibidos na Palavra; nem podem tais casamentos incestuosos jamais ser tornados lícitos por qualquer lei humana ou consentimento das partes, de modo que essas pessoas possam viver juntas como marido e mulher. O homem não pode casar-se com nenhuma parenta de sua mulher mais próxima em sangue do que poderia casar-se dentre as suas próprias parentas, nem a mulher com nenhum parente de seu marido mais próximo em sangue do que poderia casar-se dentre os seus próprios parentes.
O adultério ou a fornicação cometidos depois de um contrato de casamento, sendo descobertos antes do casamento, dão justa ocasião à parte inocente de dissolver esse contrato. No caso de adultério depois do casamento, é lícito à parte inocente promover o divórcio e, depois do divórcio, casar-se com outra pessoa, como se a parte culpada estivesse morta.
Ainda que a corrupção do homem seja tal que o incline a procurar argumentos para separar indevidamente aqueles que Deus uniu em matrimônio, contudo nada, senão o adultério ou uma deserção voluntária tal que não possa de modo algum ser remediada pela Igreja ou pelo magistrado civil, é causa suficiente para dissolver o vínculo do matrimônio; no que se deve observar um procedimento público e ordenado, e as pessoas nele envolvidas não devem ser deixadas à sua própria vontade e discrição em sua própria causa.
25.Da Igreja
A Igreja católica ou universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que foram, são ou hão de ser reunidos em um só corpo, sob Cristo, o seu Cabeça; e é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.
A Igreja visível, que também é católica ou universal sob o evangelho (não restrita a uma só nação, como antes sob a lei), consta de todos aqueles que, pelo mundo inteiro, professam a verdadeira religião, juntamente com os seus filhos; e é o reino do Senhor Jesus Cristo, a casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação.
A esta Igreja católica visível Cristo deu o ministério, os oráculos e as ordenanças de Deus, para a reunião e o aperfeiçoamento dos santos nesta vida, até o fim do mundo; e, por sua própria presença e pelo seu Espírito, segundo a sua promessa, os torna eficazes para isso.
Esta Igreja católica tem sido umas vezes mais, outras vezes menos visível. E as igrejas particulares, que são membros dela, são mais ou menos puras, conforme a doutrina do evangelho é nelas ensinada e abraçada, as ordenanças administradas e o culto público celebrado com mais ou menos pureza.
As igrejas mais puras debaixo do céu estão sujeitas à mistura e ao erro; e algumas têm degenerado a ponto de não serem mais igrejas de Cristo, mas sinagogas de Satanás. Não obstante, haverá sempre sobre a terra uma Igreja para adorar a Deus segundo a sua vontade.
Não há outro Cabeça da Igreja senão o Senhor Jesus Cristo; nem pode o Papa de Roma, em sentido algum, ser cabeça dela; mas ele é aquele Anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição, que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus.
26.Da Comunhão dos Santos
Todos os santos que estão unidos a Jesus Cristo, seu Cabeça, pelo seu Espírito e pela fé, têm comunhão com ele em suas graças, sofrimentos, morte, ressurreição e glória; e, estando unidos uns aos outros em amor, têm comunhão nos dons e graças uns dos outros, e estão obrigados ao cumprimento daqueles deveres, públicos e particulares, que contribuem para o seu bem mútuo, tanto no homem interior como no exterior.
Os santos, por sua profissão, estão obrigados a manter uma santa sociedade e comunhão no culto de Deus e no desempenho daqueles outros serviços espirituais que tendem à sua edificação mútua; como também em socorrer-se uns aos outros nas coisas exteriores, segundo as suas diversas possibilidades e necessidades. Esta comunhão, conforme Deus oferecer oportunidade, deve estender-se a todos aqueles que, em todo lugar, invocam o nome do Senhor Jesus.
Esta comunhão que os santos têm com Cristo não os faz de modo algum participantes da substância da sua Divindade, nem iguais a Cristo em qualquer respeito; afirmar qualquer destas coisas é ímpio e blasfemo. Nem a comunhão que têm uns com os outros, como santos, tira ou diminui o direito ou a propriedade que cada um tem sobre os seus bens e posses.
27.Dos Sacramentos
Os sacramentos são santos sinais e selos do pacto da graça, imediatamente instituídos por Deus, para representar Cristo e os seus benefícios e confirmar o nosso interesse nele; como também para estabelecer uma diferença visível entre os que pertencem à Igreja e o resto do mundo, e para solenemente comprometê-los ao serviço de Deus em Cristo, segundo a sua Palavra.
Há em todo sacramento uma relação espiritual, ou união sacramental, entre o sinal e a coisa significada; pelo que sucede que os nomes e os efeitos de um são atribuídos ao outro.
A graça que é exibida nos sacramentos ou pelos sacramentos, retamente usados, não é conferida por algum poder que neles haja; nem a eficácia do sacramento depende da piedade ou da intenção de quem o administra, mas da operação do Espírito e da palavra da instituição, a qual contém, juntamente com um preceito que autoriza o seu uso, uma promessa de benefício aos que o recebem dignamente.
Há somente dois sacramentos ordenados por Cristo, nosso Senhor, no Evangelho, a saber, o Batismo e a Ceia do Senhor; nenhum dos quais pode ser ministrado senão por um ministro da Palavra legitimamente ordenado.
Os sacramentos do Antigo Testamento, quanto às coisas espirituais por eles significadas e exibidas, eram, em substância, os mesmos que os do Novo.
28.Do Batismo
O batismo é um sacramento do Novo Testamento, ordenado por Jesus Cristo, não somente para a admissão solene da pessoa batizada na Igreja visível, mas também para lhe ser sinal e selo do pacto da graça, da sua união com Cristo, da regeneração, da remissão dos pecados e da sua entrega a Deus, por Jesus Cristo, para andar em novidade de vida; o qual sacramento, por designação do próprio Cristo, deve continuar em sua Igreja até o fim do mundo.
O elemento exterior a ser usado neste sacramento é a água, com a qual a pessoa deve ser batizada em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, por um ministro do evangelho legitimamente chamado para isso.
Não é necessário imergir a pessoa na água; mas o batismo é corretamente administrado derramando-se ou aspergindo-se água sobre a pessoa.
Não somente os que atualmente professam fé em Cristo e obediência a ele, mas também os filhos de pais crentes, de um ou de ambos, devem ser batizados.
Ainda que seja grande pecado desprezar ou negligenciar esta ordenança, contudo a graça e a salvação não estão tão inseparavelmente ligadas a ela, que ninguém possa ser regenerado ou salvo sem ela, ou que todos os que são batizados sejam indubitavelmente regenerados.
A eficácia do batismo não está presa ao momento em que é administrado; contudo, pelo reto uso desta ordenança, a graça prometida não somente é oferecida, mas realmente exibida e conferida pelo Espírito Santo àqueles (sejam adultos ou crianças) a quem essa graça pertence, segundo o conselho da própria vontade de Deus, no tempo por ele designado.
O sacramento do batismo deve ser administrado uma só vez a cada pessoa.
29.Da Ceia do Senhor
Nosso Senhor Jesus, na noite em que foi traído, instituiu o sacramento do seu corpo e sangue, chamado Ceia do Senhor, para ser observado em sua Igreja até o fim do mundo: para a perpétua lembrança do sacrifício de si mesmo em sua morte; para selar todos os benefícios dela aos verdadeiros crentes; para o seu nutrimento espiritual e crescimento nele; para maior compromisso deles em todos os deveres que lhe devem e para com eles; e para ser um vínculo e penhor da sua comunhão com ele e uns com os outros, como membros do seu corpo místico.
Neste sacramento Cristo não é oferecido a seu Pai, nem se faz de modo algum qualquer sacrifício real pela remissão dos pecados dos vivos ou dos mortos; mas somente uma comemoração daquela única oferta que ele fez de si mesmo, por si mesmo, sobre a cruz, uma vez por todas, e uma oblação espiritual de todo o louvor possível a Deus por ela; de modo que o sacrifício papista da missa, como lhe chamam, é sumamente abominável e injurioso ao único sacrifício de Cristo, a única propiciação por todos os pecados dos eleitos.
O Senhor Jesus, nesta ordenança, designou os seus ministros para declarar ao povo a sua palavra da instituição, orar e abençoar os elementos do pão e do vinho, e assim separá-los do uso comum para um uso santo; e para tomar e partir o pão, tomar o cálice e (comungando também eles mesmos) dar ambos aos comungantes; mas a ninguém que não esteja então presente na congregação.
As missas privadas, ou a recepção deste sacramento por um sacerdote ou por qualquer outro sozinho; como também a negação do cálice ao povo, a adoração dos elementos, o levantá-los ou levá-los em procissão para serem adorados, e o reservá-los para qualquer pretenso uso religioso, são todas coisas contrárias à natureza deste sacramento e à instituição de Cristo.
Os elementos exteriores deste sacramento, devidamente separados para os usos ordenados por Cristo, têm tal relação com ele crucificado, que verdadeiramente, mas apenas sacramentalmente, são às vezes chamados pelo nome das coisas que representam, a saber, o corpo e o sangue de Cristo; embora em substância e natureza continuem a ser verdadeira e unicamente pão e vinho, como eram antes.
A doutrina que sustenta uma mudança da substância do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Cristo (comumente chamada transubstanciação), pela consagração de um sacerdote ou de qualquer outro modo, é repugnante não só à Escritura, mas também ao senso comum e à razão; destrói a natureza do sacramento; e tem sido, e é, causa de múltiplas superstições, e mesmo de grosseiras idolatrias.
Os que recebem dignamente este sacramento, participando exteriormente dos elementos visíveis, também interiormente, pela fé, real e verdadeiramente, mas não carnal e corporalmente, e sim espiritualmente, recebem a Cristo crucificado e todos os benefícios da sua morte, e dele se alimentam; estando o corpo e o sangue de Cristo, então, não corporal ou carnalmente no pão e no vinho, com eles ou sob eles, mas tão real, porém espiritualmente, presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como os próprios elementos o estão aos seus sentidos exteriores.
Ainda que os ignorantes e os ímpios recebam os elementos exteriores deste sacramento, contudo não recebem a coisa por eles significada; mas, por se aproximarem indignamente, tornam-se culpados do corpo e do sangue do Senhor, para a sua própria condenação. Portanto, todas as pessoas ignorantes e ímpias, assim como são inaptas para gozar comunhão com ele, assim também são indignas da mesa do Senhor, e não podem, sem grande pecado contra Cristo, enquanto permanecerem nesse estado, participar destes santos mistérios ou ser admitidas a eles.
30.Das Censuras Eclesiásticas
O Senhor Jesus, como Rei e Cabeça da sua Igreja, nela designou um governo nas mãos de oficiais da Igreja, distinto do magistrado civil.
A estes oficiais são confiadas as chaves do reino dos céus, em virtude das quais têm poder, respectivamente, para reter e remitir pecados; para fechar esse reino aos impenitentes, tanto pela Palavra como pelas censuras; e para abri-lo aos pecadores arrependidos, pelo ministério do evangelho e pela absolvição das censuras, conforme a ocasião o exigir.
As censuras eclesiásticas são necessárias para recuperar e ganhar os irmãos ofensores; para dissuadir outros de ofensas semelhantes; para lançar fora aquele fermento que poderia infectar toda a massa; para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do evangelho; e para prevenir a ira de Deus, que poderia justamente cair sobre a Igreja, se esta consentisse que o pacto de Deus e os seus selos fossem profanados por ofensores notórios e obstinados.
Para melhor alcançar estes fins, os oficiais da Igreja devem proceder por admoestação, por suspensão do sacramento da Ceia do Senhor por algum tempo e por excomunhão da Igreja, segundo a natureza do crime e o demérito da pessoa.
31.Dos Sínodos e Concílios
Para melhor governo e maior edificação da Igreja, deve haver assembleias tais como as que são comumente chamadas sínodos ou concílios.
Assim como os magistrados podem licitamente convocar um sínodo de ministros e de outras pessoas idôneas para consultar e aconselhar-se com eles acerca de matérias de religião, assim também, se os magistrados forem inimigos declarados da Igreja, os ministros de Cristo, por si mesmos, em virtude do seu ofício, ou eles juntamente com outras pessoas idôneas, por delegação das suas igrejas, podem reunir-se em tais assembleias.
Compete aos sínodos e concílios, ministerialmente, determinar controvérsias de fé e casos de consciência; estabelecer regras e diretrizes para a melhor ordenação do culto público de Deus e do governo da sua Igreja; receber queixas em casos de má administração e determinar o assunto com autoridade; os quais decretos e determinações, se conformes à Palavra de Deus, devem ser recebidos com reverência e submissão, não somente por sua concordância com a Palavra, mas também pelo poder com que são feitos, como sendo uma ordenação de Deus, designada para isso em sua Palavra.
Todos os sínodos ou concílios desde os tempos dos apóstolos, quer gerais quer particulares, podem errar, e muitos têm errado; portanto, não devem ser tomados como regra de fé ou de prática, mas usados como auxílio em ambas.
Os sínodos e concílios não devem tratar nem decidir coisa alguma senão o que é eclesiástico; e não devem intrometer-se em negócios civis que dizem respeito ao Estado, a não ser por meio de humilde petição, em casos extraordinários, ou por meio de conselho, para satisfação de consciência, se para isso forem solicitados pelo magistrado civil.
32.Do Estado dos Homens depois da Morte e da Ressurreição dos Mortos
Os corpos dos homens, depois da morte, voltam ao pó e veem a corrupção; mas as suas almas (que nem morrem nem dormem), tendo uma subsistência imortal, voltam imediatamente para Deus, que as deu. As almas dos justos, sendo então aperfeiçoadas em santidade, são recebidas no mais alto dos céus, onde contemplam a face de Deus em luz e glória, esperando a plena redenção dos seus corpos; e as almas dos ímpios são lançadas no inferno, onde permanecem em tormentos e em densas trevas, reservadas para o juízo do grande dia. Além destes dois lugares para as almas separadas dos seus corpos, a Escritura não reconhece nenhum outro.
No último dia, os que forem achados vivos não morrerão, mas serão transformados; e todos os mortos serão ressuscitados com os mesmíssimos corpos, e não outros, embora com qualidades diferentes, os quais serão novamente unidos às suas almas para sempre.
Os corpos dos injustos serão, pelo poder de Cristo, ressuscitados para a desonra; os corpos dos justos, pelo seu Espírito, para a honra, e serão feitos semelhantes ao seu próprio corpo glorioso.
33.Do Juízo Final
Deus designou um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de Jesus Cristo, a quem foi dado pelo Pai todo o poder e juízo. Nesse dia não somente os anjos apóstatas serão julgados, mas igualmente todas as pessoas que viveram sobre a terra comparecerão perante o tribunal de Cristo, para darem conta dos seus pensamentos, palavras e ações, e para receberem segundo o que tiverem feito por meio do corpo, quer bem quer mal.
O fim por que Deus designou este dia é a manifestação da glória da sua misericórdia na salvação eterna dos eleitos, e da sua justiça na condenação dos réprobos, que são ímpios e desobedientes. Pois então os justos entrarão na vida eterna e receberão aquela plenitude de alegria e refrigério que virá da presença do Senhor; mas os ímpios, que não conhecem a Deus e não obedecem ao evangelho de Jesus Cristo, serão lançados nos tormentos eternos e punidos com eterna destruição, longe da presença do Senhor e da glória do seu poder.
Assim como Cristo quer que estejamos certamente persuadidos de que haverá um dia de juízo, tanto para dissuadir todos os homens do pecado como para maior consolação dos piedosos em sua adversidade, assim também quer que esse dia seja desconhecido dos homens, para que se desfaçam de toda segurança carnal e estejam sempre vigilantes, porque não sabem a que hora o Senhor virá; e estejam sempre preparados para dizer: Vem, Senhor Jesus; vem depressa. Amém.
34.Do Espírito Santo (apêndice de 1903)
O Espírito Santo é a terceira pessoa da Trindade, procedente do Pai e do Filho, da mesma substância e igual em poder e glória, e deve-se crer nele, amá-lo, obedecer-lhe e adorá-lo, juntamente com o Pai e o Filho, por todos os séculos.
É ele o Senhor e Doador da vida, presente em toda parte na natureza, e é a fonte de todos os pensamentos bons, desejos puros e conselhos santos que se encontram nos homens. Por ele os profetas foram levados a falar a Palavra de Deus, e todos os autores da Sagrada Escritura foram inspirados a registrar de um modo infalível a disposição e a vontade de Deus. A dispensação do Evangelho foi-lhe entregue de um modo especial. O Espírito Santo prepara o caminho para o Evangelho, acompanha-o com seu poder persuasivo e recomenda a sua mensagem à razão e à consciência dos homens, de maneira que os que rejeitam a oferta misericordiosa ficam não somente sem desculpa, mas também culpados de terem resistido ao Espírito Santo.
O Espírito Santo, o qual o Pai prontamente dá a todos os que lho pedirem, é o único agente eficaz na aplicação da redenção. Ele convence os homens do pecado, leva-os ao arrependimento, regenera-os pela sua graça e persuade-os e habilita-os a abraçar a Jesus Cristo pela fé. Ele une todos os crentes a Cristo, habita neles como seu Consolador e Santificador, dá-lhes o espírito de adoção e de oração, e cumpre neles todos os graciosos ofícios pelos quais eles são santificados e selados até o dia da redenção.
Pela presença do Espírito Santo nos seus corações, todos os crentes, estando intimamente unidos a Cristo, a Cabeça, estão assim unidos uns aos outros na Igreja, que é o seu corpo. Ele chama e unge os ministros para o seu santo ofício, prepara todos os outros oficiais na Igreja para o seu trabalho especial e concede vários dons e graças aos demais membros. Ele torna eficazes a Palavra e as ordenanças do Evangelho. Por ele a Igreja será preservada e aumentada até cobrir a face da terra, será purificada e, afinal, tornada perfeitamente santa na presença de Deus.
35.Do Amor de Deus e das Missões (apêndice de 1903)
Em seu amor infinito e perfeito, e tendo provido no pacto da graça, pela mediação e sacrifício do Senhor Jesus Cristo, um caminho de vida e salvação suficiente e adaptado a toda a raça humana decaída, Deus determinou que esta salvação de graça seja anunciada a todos os homens no Evangelho.
No Evangelho Deus proclama o seu amor ao mundo, revela clara e plenamente o único caminho da salvação, assegura vida eterna a todos quantos verdadeiramente se arrependem e creem em Cristo, e ordena que esta salvação seja anunciada a todos os homens, a fim de que conheçam a misericórdia oferecida e, pela ação do seu Espírito, a aceitem como dádiva da graça.
As Escrituras nos asseguram que os que ouvem o Evangelho e aceitam imediatamente os seus misericordiosos oferecimentos gozam os eternos benefícios da salvação; porém os que continuam impenitentes e incrédulos agravam a sua falta e são os únicos culpados pela sua perdição.
Visto não haver outro caminho de salvação a não ser o revelado no Evangelho, e visto que, conforme o usual método de graça divinamente estabelecido, a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, Cristo comissionou a sua Igreja para ir por todo o mundo e ensinar a todas as nações. Todos os crentes, portanto, têm por obrigação sustentar as ordenanças religiosas onde já estiverem estabelecidas e contribuir, por meio de suas orações, ofertas e esforços, para a dilatação do Reino de Cristo por todo o mundo.